Valentina
Algumas memórias não passam... elas respiram dentro da gente.
Paris respira em mim todos os dias desde que voltamos.
Toda vez que fecho os olhos ainda vejo o brilho das velas no alto da Torre Eiffel, o anel brilhando na minha mão, o homem ajoelhado, o mesmo homem que já incendiou portos, destruiu impérios e carregou cadáveres nas costas, me dizendo com a voz mais baixa do mundo que eu era o amor da vida dele.
Três semanas.
É o tempo que passou.
Três semanas desde que deixei um pedaço do meu medo em Paris e trouxe de volta apenas o que vale a pena carregar: Dante, nosso filho, e a certeza absurda de que o amor depois da dor existe e vive.
Mas não pense que Paris o suavizou.
Ele voltou mais dele do que nunca.
Mais Don.
Mais homem.
Mais... pai.
E isso, meu amor, não é pouca coisa.
Desde o bilhete com a ameaça, aquele em que dizia que meu bebê não merecia nascer, Dante transformou a mansão em Florença em um campo militar com flores na janela. Guardas, câmeras novas, sensores de movimento, rotas de fuga revisadas. Até o chá agora vem com escolta armada. Se eu espirro, dez pessoas surgem perguntando se quero água, almofada, comida, missa.
Mas hoje...
Hoje é o dia que muda tudo.
Hoje vamos ver o bebê pela primeira vez.
O ultrassom já está montado. Dentro da nossa mansão. Sim, dentro. Dante não achou suficiente me levar ao consultório, ele trouxe o consultório até mim. Melhor: trouxe a médica, os equipamentos, uma sala inteira transformada num consultório particular com cheiro de lavanda e luz baixa.
Porque, segundo ele:
"Se o mundo quer tocar o que é meu, eu tiro o mundo de perto."
E às vezes eu acho lindo. Às vezes, assustador. Às vezes? As duas coisas juntas.
Mas neste momento estou sentada à penteadeira, respirando fundo, com uma blusa preta de tecido macio e uma calça confortável. E sentindo o olhar dele atrás de mim através do espelho, como sempre.
Dante encostou no meu ombro devagar, como quem segura dinamite com carinho.
- Você fica ainda mais bonita quando tenta disfarçar que está nervosa. - ele falou, baixinho, com um sorriso que me desmonta.
- Não estou nervosa. - menti.
Ele ergue uma sobrancelha.
- Está a ponto de explodir. Eu sinto daqui.
Revirei os olhos, mas o coração falhou com força. Ele deslizou os dedos pelo meu braço, pela cintura, até a curva discreta da barriga. Um toque de posse. Um toque de amor.
Um toque que diz meu lugar é aqui.
- Eu gosto quando usa vestido - ele murmurou perto demais da minha pele. - Mas hoje... com essa calça justa e essa blusa colada... você está uma maldição deliciosa.
Minha respiração falhou.
- Don Vitale - avisei com ar indignado - se continuar falando assim eu vou esquecer que estamos atrasados para o café.
Ele sorri. Aquele sorriso lento. Mortal.
- Café pode esperar. Meu desejo, não.
Ele me virou para ele, aproximou a boca da minha sem pressa, apenas o suficiente para me desestabilizar. Sua mão segurou minha nuca, o polegar roçando minha boca, eu já estava pronta se ele insistisse, e ele sabia disso.
- Depois do ultrassom, eu vou terminar o que comecei. - sussurrou, prometendo terremoto.
E eu acreditei. Porque Dante nunca promete em vão. Mas antes que eu respondesse, Teresa bateu na porta.
- Don? A mesa está posta.
Ele sorriu contra a minha boca e beijou meu queixo, como quem risca fósforo em gasolina.
- Vamos antes que eu te coma aqui mesmo.
- Meu Deus Dante! - o repreendi, e ele piscou pra mim.
Me perdi naquele olhar, esqueci até de respirar... porque respirar é um desafio com esse homem.
Entramos de mãos dadas como sempre, a sala parecia mais viva hoje. A toalha branca, as taças com suco fresco, Teresa servindo ovos mexidos com o cuidado de quem serve bênçãos, Elisa colocando brioches na mesa como se oferecesse paz.
Dante puxou minha cadeira, como sempre. Beijou minha mão antes de deixar eu sentar.
- Está sendo exagerado - avisei, sorrindo.
- Ainda não. - ele respondeu. - O exagero vai começar quando eu colocar sua foto em cada parede da casa, e isso será em breve.
- Santo Deus amor, nem brinca com isso.
- Amore mio, sabe que não sou homem de brincadeira. - ele aproximou o rosto do meu. - O que falo, cumpro. Principalmente quando digo que vou terminar o que comecei lá no quarto depois da consulta, porque você nessa roupa está me matando.
- Controlo-se Don Vitale. - levei os lábios até seu ouvido. - Se o que está em cima já está te deixando assim, imagina quando ver o que tem por baixo, só uma dica... - abaixei o tom de voz. - é vermelha.
Dante rosnou, sim, meu futuro marido rosnou de desejo e eu? Eu ri.
Começamos a comer, e Sofia entrou linda, radiante, com aquele sorriso atrevido.
- Ouvi dizer que teremos exposição de senhorita Rojas na mansão? Se fizer isso, avisa antes pra eu vender ingresso. - ela disse. - Eu ganho uma grana.
Rimos. E é bom rir.
- Rojas não. - Dante a corrigiu. - Da senhora Vitale. - ele pegou minha mão e deu um beijo.
Mario chegou logo atrás de Sofia, discreto, formal, mas o olhar suavizou quando cruzou com o dela. Ela percebeu, eu percebi, o mundo percebeu.
- Bom dia, Don. Senhora. - ele cumprimentou.

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