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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 76

Dante

Se alguém olhar de fora, vai ver só Paris acesa, a torre cortando o céu e uma mesa posta demais para ser acaso.

Mas, aqui dentro, eu sei: não é um jantar. É uma reparação.

Passei o dia inteiro pensando em como roubar da cidade o que ela tem de mais bonito e devolver pra Valentina com o meu sobrenome em volta. Não é fácil escolher detalhes quando a mulher que você ama já merece tudo, mas eu tentei.

As flores vieram primeiro. Não aquelas frias demais de arranjo de hotel, sem cheiro de nada. Pedi rosas em tom chá, com ramos de oliveira no meio, como os que Teresa coloca na mesa de domingo em Florença. Paz e casa, no mesmo vaso.

Depois, as velas. Nada de perfume que parecesse vitrine de loja cara. Quis cheiro de vida real. Pedi vela com nota de pão assando e lavanda, um aroma que me lembrasse Teresa abrindo o forno de madrugada e Elisa reclamando do cheiro que "fica preso nas cortinas, Don". Quando acenderam a primeira, eu soube que tinha acertado: por um segundo, a torre cheirou a cozinha.

O jantar, claro, precisava ter a mão delas duas. Mandei a cozinha do hotel surtar com uma receita enviada por Teresa num áudio de mais de cinco minutos, cheio de bronca e carinho.

- Se esse chef não fizer direito, eu mesma vou aí bater a colher de pau na cabeça dele - ela disse, antes de mandar, em detalhes, a forma certa de selar a carne, o tempo exato do molho, a massa que não podia passar um segundo do ponto.

Ouvir a voz dela aqui, no alto da Torre Eiffel, foi meu jeito de encravar raízes numa cidade que não é minha.

Mas o mais importante está no meu bolso, e não sobre a mesa.

O anel.

Demorei mais do que admito pra escolher. Pedra demais grita. Pedra de menos, não conta a história. Acabei parando em algo que é a cara dela: ouro simples, sem desenho exagerado, com um diamante único no centro e dois menores nas laterais. Nós dois e o nosso filho. Três pontos de luz que, juntos, contam o resto.

Quando peguei o anel pronto, a joalheria inteira parecia pequena demais pra segurar o que eu senti. Não era só um anel. Era a certeza física do que eu já sei há muito tempo: Valentina Rojas é o amor da minha vida. E depois de hoje, o mundo inteiro vai saber o que eu já carrego desde o primeiro beijo: que ela é Valentina Vitale.

Ouvi o elevador chegar antes de vê-la.

Eu sei que é ela. O corpo inteiro sabe.

Me virei.

E o que entra no topo da Torre Eiffel não é só uma mulher arrumada por uma equipe de hotel. É a minha mulher, a mãe do meu filho, o motivo pelo qual Paris hoje parece menos cidade e mais cenário.

O vestido off-white abraça a barriga ainda pequena com respeito. O cabelo está preso em um coque elegante, com alguns fios soltos, como se o mundo tivesse tentando domar o furacão e conseguido só organizar o caos. O rosto está iluminado, mas o brilho dos olhos não veio de maquiagem. Veio de tudo o que a gente sobreviveu.

Por um segundo, eu esqueço que sei falar.

- Santo Deus... - escapa, baixo.

Ela sorri, meio tímida, meio dona do que provoca.

Dei dois passos na direção dela. Estendo a mão. Não encosto até ela decidir. Quando decide, os dedos dela encaixam nos meus como se a vida inteira tivesse treinado pra isso.

Mario e Sofia se mantêm discretos a um passo de distância.

- Mario - digo, sem tirar os olhos da mulher que importa - obrigado.

- Sempre, Don.

- Sofia - acrescento - há uma reserva no melhor restaurante de Paris para você e o Mario. Aproveitem.

O quase engasgo dos dois me arranca um meio sorriso. Eles saem, deixando para trás perfume, possibilidade e alguns suspiros.

E, enfim, ficamos só nós.

No topo da cidade.

Acima do barulho.

Valentina aperta minha mão com leveza.

- Está preparada, amore?

- Para quê? - me perguntou quase sem voz.

Sorri, lento, malicioso e apaixonado... sempre apaixonado.

- Para a melhor noite da sua vida. - respondi.

- Esse é o seu jeito de se desculpar por prometer quatro e demorar seis horas?

Eu ri, baixo.

- Se você acha que isso aqui é um pedido de desculpas, vai se assustar quando eu começar a exagerar de verdade.

A guiei até a mesa. O vento lá fora era frio, mas o espaço foi fechado por estruturas de vidro que deixavam Paris ao redor como se fosse um quadro. Velas acesas, flores no centro, duas taças, pratos arrumados com precisão cirúrgica.

Puxei a cadeira pra ela, e Valentina se sentou devagar, a mão indo automaticamente à barriga num gesto que já não é só instinto, é oração silenciosa.

- Você está impossível hoje - ela comentou, me acompanhando com o olhar enquanto eu dava a volta e me sentava à frente. - Pior que filme.

- Pior em que sentido? - perguntei, servindo água primeiro. Vinho, agora, só no meu copo. - No nível "romântico demais" ou "perigoso demais"?

- Nos dois. - Ela apoiou o queixo na mão, os olhos presos em mim. - Você é o homem que toda espectadora ia dizer que não existe. E aí você existe. Dá uma certa raiva.

Sorri de canto.

- Eu não faço ideia do que estou fazendo, Valentina. Só sei que quero que, hoje, o único peso que você sinta seja o do meu sobrenome e da certeza de que vocês dois são o centro da minha vida.

Ela me olhou por alguns segundos, em silêncio. Eu deixei. Essa mulher pesa palavras como quem pesa ouro. Quando decide soltar, raramente volta atrás.

- Você está perfeito sem nem perceber - ela diz, por fim. - E eu sei que não é por causa de Paris. É por causa de mim. E do nosso filho.

Um nó aperta minha garganta mais do que eu gostaria de admitir.

- Sempre foi por causa de você - respondi, honesto. - Paris só tem a vista boa.

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