Valentina
O bilhete ainda pesava na minha mente como se tivesse sido escrito na pele e não no papel.
"Nem toda vida que cresce merece nascer. E essa... não vai."
A frase voltava em ondas, como as náuseas que vêm sem aviso. Mas o medo que senti não foi só pela vida dentro de mim, foi pelo que eu sei que esse tipo de ameaça faz com o Dante. Ele não reage com lágrimas. Ele reage com aço. E aço, quando aquecido demais, pode se partir.
Mas passou.
Ou melhor: ele me tirou daquele lugar escuro, não com promessas vazias, mas com a presença dele inteira. Com o jeito como me segurou como se eu fosse casa, não peso. Com o Don que virou homem, e o homem que virou porto seguro.
E agora, enquanto ele respira devagar ao meu lado, apoiado na cabeceira, penso que o mundo pode querer me quebrar quantas vezes quiser, mas nunca vai conseguir arrancar o chão que ele coloca debaixo dos meus pés.
Nos últimos dias, ele não me deixou sozinha um minuto sequer.
Nem banheiro.
Nem corredor.
Nem sala de reunião.
Eu virei mala de luxo dele: vai junto pra todo lugar, com Mario dois passos atrás e Sofia fazendo graça para aliviar a tensão. E o pior (ou melhor) é que eu gosto.
Eu gosto da forma como ele segura minha mão antes de entrar em qualquer sala. Gosto da forma como ele checa a temperatura da água, do chá, do restaurante, do clima e do universo antes de me deixar respirar.
Gosto da forma como ele fala com o bebê em italiano, como se a língua materna fosse uma bênção herdada.
E hoje ele está... ainda mais atento. O toque dele não pesa, mas envolve. O olhar dele não pressiona, mas registra tudo. E eu sei que não é só amor. É medo também. O medo do que aconteceu. Do bilhete. Do abismo que quase abriu entre nós.
Se tornou um hábito meu dormir depois do almoço, e meu homem fez disso um hábito dele também. Toquei minha barriga devagar.
- Estamos bem, meu amor - sussurrei para o pequeno. - O teu pai é homem, é marreta e é muralha. Ninguém chega perto.
Senti Dante se mexer ao meu lado.
- Falando mal de mim pro nosso filho? - ele perguntou, com a voz baixa e arranhada de sono.
- Tô falando verdades. - sorri.
Ele se inclinou sobre mim.
- Verdades não me assustam. Me diga uma delas.
- Você seria capaz de incendiar o mundo se alguém tocasse nele.
- Não no mundo inteiro - ele corrige, sério. - Só no pedaço que tentar. E, se for preciso, eu reconstruo depois.
Eu ri. Ele não.
O beijo veio devagar, daquele jeito perigoso que começa como carinho e termina como colisão emocional. Não tem pressa. Tem precisão.
A mão dele subiu pela lateral do meu corpo, desenhando fronteiras que sempre pertencem a ele. Seus lábios desceram pelo meu pescoço, pela clavícula, por cada espaço onde antes havia medo e agora existe só certeza.
E eu respondi.
Porque amar o Dante sempre é um ato físico. É corpo, alma, vontade e guerra. É lembrar que, por trás do Don, existe um homem que só eu toco desse jeito. E que esse homem, por mais duro que seja, sempre amolece nos meus braços.
Quando terminamos, eu estava com o coração calmo, o corpo leve e a cabeça repousada no peito dele.
Ele acariciou meu ombro por longos minutos até finalmente dizer:
- Valentina... hoje eu preciso sair por algumas horas.
Meu corpo inteiro travou.
Afastei o rosto para olhar nos olhos dele.
- Sozinho?
- Sim.
- Sem o Mario? - perguntei, estreitando os olhos.
- O Mario e a Sofia ficam com você.
A desconfiança apareceu feito um arranhão.
- Dante... você nunca sai sem ele.
- E nunca vou sair em situações que exijam isso. Mas agora é outra coisa. É... pessoal.
Pessoal.
Essa palavra acendeu imediatamente meu alerta interno.
- Você vai atrás do bilhete?
Ele respirou fundo.
- Não. Ainda não. Hoje não.
- Dante...
- Valentina, amor... - ele segurou meu queixo entre os dedos - ...eu não vou atrás de ninguém. Ainda. Confia. Se fosse algo que colocasse você em risco, eu não sairia nem por um segundo.
A parte mais teimosa de mim quer argumentar. Mas a parte que conhece cada centímetro emocional dele percebe que ele está dizendo a verdade.
- Horas, é muito vago. Trabalhamos com matemática, e ela é exata.
- Talvez sejam três.
- Talvez não existe entre nós, só certeza.
- Então garanto quatro.
- Quatro. - repito, desconfiada.
- Quatro.
- Promete?
- Com a mão no fogo - ele murmurou, encostando os lábios na minha palma. - E eu cumpro o que prometo.
Eu suspirei, meio convencida, meio furiosa, meio apaixonada (o que, no meu caso, geralmente dá 100%). Ele me beija a testa, se veste e sai.
E aí começou o inferno.
Nos primeiros vinte minutos, eu fingi estar calma. Nos vinte seguintes, eu caminhei de um lado para o outro da suíte. Em trinta, eu já estava interrogando o Mario como se fosse policial.
- Mario, onde ele foi?
- Senhora Vitale...
- Não começa! - o interrompi, apontando o dedo pra ele. - Você sempre enrola quando não pode contar.
- Eu não posso contar.
- Então ele está escondendo algo de mim.
- Não está.
- Então me conta.
Mario respirou fundo, e pela primeira vez vi o pobre homem piscar como quem estava prestes a cometer um erro de trabalho.
- O Don... - ele hesitou - ...preparou uma surpresa para a senhora.
Arregalei os olhos.
- Como assim surpresa?

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