Dante
Quando tenho certeza de que ela está mergulhada num sono que merece, deslizei devagar para fora da cama, sem acordá-la. Ajustei o cobertor até o queixo dela, apaguei mais uma luz, deixei apenas o abajur mais distante aceso, como sentinela.
Toquei de leve o ventre dela antes de me afastar.
- Papà volta já. - murmurei. - Agora é hora do Don.
Sai do quarto e fechei a porta com cuidado. Na saleta, Mario já me esperava, em pé, com a mesma roupa do dia, mas com outro olhar. O olhar de quem sabe que a conversa mudou de tom.
- Ela está bem? - ele perguntou primeiro, como deve ser.
- Está dormindo. - respondi. - E vai continuar assim. Porque quem escreveu isso aqui... - tirei o bilhete do bolso e alisei o papel amassado - ...acabou de comprar uma guerra que não tem condições de pagar.
Entreguei o papel na mão dele. Mario lê em silêncio. Vejo o maxilar dele endurecer.
- Covarde. - soltou.
- Covarde e burro. - corrigi. - Porque tocou no único ponto que me faz perder a pouca paciência cristã que me resta.
Caminhei até a janela da saleta. Paris está lá fora, iluminada, bonita demais para a sujeira que corre por baixo.
- Quero todas as imagens de segurança do andar desde que saímos da suíte até a entrega do envelope. - comecei, o tom mudando para o do comando. - Quero saber quem subiu, quem desceu, quem parou por segundos demais em frente à nossa porta. Entrega de flores, serviço de quarto, camareira curiosa, hóspede deslocado... tudo.
Mario assentiu, já abrindo o tablet.
- Já pedi as primeiras imagens. Devem mandar em menos de uma hora. - diz. - O selo do envelope, o senhor viu?
- Vi. - respondi. - Uma flor com espinhos. Não reconheço. Quero que você tire foto, mande para o Thomas e para o Ethan. Eles são bons em desfazer esse tipo de arabesco simbólico. Pode ser uma pista, pode ser só pose. Mas eu não acredito em coincidência nenhuma, não mais.
Mario girou o bilhete nas mãos, atento.
- E a caligrafia? - questionou. - Parece limpa, estudada. Alguém que teve tempo e educação demais.

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