Dante
O elevador subia devagar demais para a urgência que fervia dentro de mim. O bipe de cada andar parecia um deboche.
A voz da Sofia ainda ecoava no meu ouvido, engasgada, tentando ser firme:
"Ela recebeu um envelope... e nele havia uma ameaça... Don, alguém disse que a Valentina está prestes a perder o bebê."
Desde então, o meu mundo inteiro virou um corredor estreito entre o que eu sou e o que eu prometi ser para ela.
O marido quer correr.
O Don quer matar.
Eu apertei o celular na mão até os nós dos dedos embranquecerem. Mario estava ao meu lado, tenso, mas calmo como sempre que o caos escolhe falar alto.
- Don... - ele arrisca, medindo as palavras. - Eu já pedi ao hotel as imagens do corredor do nosso andar. Ninguém entra naquele piso sem aparecer em pelo menos duas câmeras.
Assenti com a cabeça, sem tirar os olhos do painel luminoso.
- Primeiro, eu vejo a minha mulher. - Minha voz saiu baixa, cortante. - Depois eu vejo as câmeras. A prioridade é ela. O resto a gente resolve com sangue frio.
O elevador apitou o nosso andar. As portas se abriram. Eu saí como se o corredor fosse curto demais para a pressa que tenho. O carpete amortizava os passos, mas não disfarçava a fúria. Mario acompanha no meu ritmo, atento.
A suíte apareceu alguns metros à frente. A porta estava fechada, mas tinha algo errado: a sensação de vazio atrás da madeira não combinava com o rastro da Valentina. Ela é presença, até no silêncio.
Bati uma vez, duas, sem delicadeza.
- Sofia. - chamei.
A porta se abriu rápido, como quem já esperava. Sofia puxou a maçaneta com a mão trêmula. O rosto dela estava mais pálido que o normal, os olhos avermelhados, mas lúcidos. O tipo de lucidez que só aparece quando a vida exige que a gente seja forte e frágil ao mesmo tempo.
- Don... - ela respirou, aliviada e em pânico. - Ainda bem que o senhor chegou.
Entrei sem pedir licença. O ar da sala parecia mais denso, como se o hotel inteiro estivesse prendendo a respiração. Mario fechou a porta atrás de nós.
- Onde ela está? - Não perdi tempo.
- No banheiro do quarto - Sofia respondeu, apontando. - Sentada no chão, do lado da banheira. Ela não quer que eu chegue perto... só disse que precisava de você.
Meu peito apertou.
- O que exatamente aconteceu? - Minha voz era firme, mas eu sentia a marreta afinando por dentro.
Sofia engoliu seco, tentou organizar os pensamentos.
- Já havia passado um tempo que o senhor saiu, estávamos conversando... - ela começou, falando rápido - ouvimos batidas na porta. Três. Nem fortes, nem fracas. Eu fui primeiro, olhei pelo olho mágico... não tinha ninguém. Quando abri, só vi o envelope no chão. Grosso, creme, com o nome da Valentina escrito à mão. Voltei com ele na mão, mostrei pra ela.
Sofia puxou o ar.
- A Valentina veio, pegou o envelope e disse que ia abrir ela mesma. Eu fiquei do lado, mas não quis ler, esperei. Ela quebrou o selo, puxou o papel... - os olhos da Sofia marejaram - ...e foi ficando branca. Tipo quando a pressão cai, mas com medo por trás. Ela só me estendeu o bilhete, com a mão tremendo. Eu li.
- O que estava escrito? - perguntei, sabendo que ia doer ouvir.
Sofia me encarou, como se até repetir as palavras fosse uma violência.
- Tinha só uma frase. Curta. Sem assinatura. - ela respirou fundo e disse, com a voz baixa: - "Nem toda vida que cresce merece nascer. E essa... não vai."
Uma corrente fria subiu pela minha coluna.
Não é só ameaça.
É profanação.
Meu maxilar travou.
Vi o papel, mesmo sem vê-lo. Vi alguém sentado em algum lugar, escrevendo isso com calma, escolhendo cada letra como quem escolhe munição.
- Depois disso? - minha voz está numa linha perigosa entre o gelo e o incêndio.
- Ela começou a tremer - Sofia continuou. - Botou a mão na barriga, como se quisesse cobrir o bebê com o próprio corpo. Disse que não estava passando bem, só... - a voz da menina falhou - ...só repetia que não ia deixar ninguém encostar nele. Foi até o banheiro, se trancou e não me deixou entrar. Eu fiquei do lado de fora insistindo, mas ela só pedia... "Chama o Dante". Por isso eu liguei.
Assenti devagar, tentando segurar o homem pela coleira do Don.
Pousei a mão no ombro da Sofia.
- Você fez exatamente o que devia. - disse, sincero. - Agora eu assumo daqui.
Olhei para Mario.
- Leva a senhorita Sofia para jantar. - ordenei. - Longe de fofoca, longe de curiosos. Come alguma coisa também. Fiquem por perto, mas não aqui dentro. Eu quero a suíte vazia. Depois, me espere na saleta. Quando eu terminar com a minha mulher, eu termino com esse bilhete.
Sofia ainda hesitou.
- Tem certeza de que não é melhor eu ficar...?
- Não. - cortei, mas com cuidado. - Agora ela precisa de mim. Mas eu confio em você para outra coisa: cuidar do que está fora enquanto eu cuido do que está dentro. Come, respira. Amanhã você precisa estar inteira para me ajudar a fazê-la rir de novo.
Ela assente, enxuga uma lágrima teimosa.
- Sim, Don.
Mario abre a porta para ela. Os dois saem. O silêncio volta, espesso. Eu o atravessei em alguns passos e parei diante da porta do quarto. A maçaneta fria gelou minha palma.

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