Dante
Fiquei esperando a resposta dele, até que ele disse:
- Chame como quiser. O ponto é: o consórcio precisa de garantias. Para liberarmos suas janelas e suspendermos certas auditorias, seria... interessante... que a Vitale&Co assumisse um compromisso mais firme com o fundo cultural e com o projeto do navio-hospital. Patrocínio em troca de fluidez. Todos ganham.
Ele fala "todos ganham" com a facilidade de quem nunca teve alguém envenenado dentro de casa.
Mario me lança um olhar rápido. Eu inclinei a cabeça um milímetro. Ele puxou outro documento.
- Curioso o senhor mencionar o navio-hospital - meu braço direito comentou, calmamente. - Fizemos uma análise recente da composição da diretoria do projeto. O senhor Dubois está no conselho. O senhor Lambert também. Dois outros nomes franceses, um suíço. E um italiano.
- Os projetos são internacionais - Dubois respondeu, ligeiramente impaciente. - Filantropia não tem nacionalidade.
- Concordo - falei. - Já interesses, têm.
Abri a pasta. Puxei uma folha, girei na direção deles.
- Este é o relatório de um dos ataques ao navio-hospital na costa de Palermo, cinco anos atrás. Um atentado falho. Um contêiner explodiu no cais antes de embarcar. O relatório oficial fala em "falha na carga". A seguradora pagou, todos seguiram a vida. - Pausei. - A seguradora se chama Santa Luzia International.
Lambert franze o cenho.
- E o que isso tem a ver conosco?
- Tudo. - Empurrei outra folha. - Porque esta mesma seguradora é hoje uma das principais patrocinadoras do fundo cultural que os senhores querem que eu "apoie". E é também a seguradora de uma pequena empresa de importação de insumos químicos que, por coincidência maravilhosa, fornece para o projeto do navio-hospital e para alguns fornecedores de "chá" gourmet que circulam em Florença e arredores.
A palavra "chá" não provoca reação neles. Todos aqui são muito bons na arte de usar só metade do rosto para reagir. Mas o observador de Marselha pisca. Só uma vez. Eu vejo.
Mario continua, clínico.
- Estamos, obviamente, investigando melhor essa cadeia - ele diz. - Mas já encontramos uma coincidência demais para ser só acaso. A mesma empresa aparece em notas fiscais checadas pela polícia de Palermo na época da explosão. E agora aparece como intermediária, em nome de terceiros, nos catálogos que o fornecedor do "chá" anda distribuindo a certas famílias em Florença. Morello, por exemplo.
Dubois se recosta na cadeira.
- Estão insinuando que o consórcio tem algo a ver com atentados e... chá?
- Estou dizendo - respondi, sem levantar a voz - que, quando alguém mexe nos meus portos, eu olho quem mais está segurando a ponta da mesma corda. E a mesma mão que tenta me apertar aqui, nesta mesa bonita, parece muito confortável em financiar projetos e fornecedores que, por coincidência demais, aparecem em momentos em que quem eu amo quase morre.
Lembrei da Valentina deitada em sua cama, a febre a tomando, lábios sem cor, a médica falando em intoxicação, Teresa chorando baixo, Elisa rezando com raiva. Pensei na Lucia dentro de um carro em chamas, na beira de um cais.
O mundo é grande. Os nomes se repetem.
- Se os senhores querem minha colaboração, vão tê-la - continuei. - Mas não com chantagem. Não com "taxa cultural". Eu apoio o navio-hospital se tiver acesso às planilhas completas de quem financia quem. Eu invisto no fundo cultural se tiver garantia de que nenhum centavo meu passa pela mesma mão que armou bombas em cais e envenenou xícaras alheias.
O silêncio que segue é denso.
Dubois troca um olhar rápido com Lambert. O observador, lá no fundo, cruza os braços, interessado.
- O senhor parece sugerir que existe um... agente por trás disso tudo - Dubois diz, por fim. - Um mandante.
Mandante. A palavra cai como chumbo sobre a mesa.
- Não sugiro - respondi. - Tenho certeza. Só não tenho ainda o nome que os senhores usam para ele quando desligam o microfone das reuniões.
Mario desliza outra folha.
- Encontramos um padrão curioso - ele diz. - Em todos os conselhos, fundos, empresas e seguradoras envolvidas nos últimos incidentes, sempre há um assento ocupado por alguém que não aparece em nenhuma foto, nenhuma festa, nenhuma matéria. Representado por advogados, procuradores, gentes que "não puderam comparecer". Nos conselhos, entra apenas como "Chairman Honorário", sem rosto. Aparece como "H" em todas as atas.
- H - repeti.
A letra se encaixa na boca com facilidade demais. H de hospital. H de herdeiros. H de hell (inferno). H de qualquer coisa que prefira operar no escuro.
- Queremos apenas operar em paz - Lambert diz, por fim, tentando trazer a reunião de volta ao trilho que lhe interessa. - E se o senhor tem suspeitas tão graves, sugerimos que procure as autoridades competentes. Nós, como consórcio, podemos apenas ajustar taxas, liberar janelas, negociar prioridades. Dentro da lei.
Ele fala "lei" com a mesma convicção com que eu falo "rosário".
Eu poderia pressionar mais. Poderia ameaçar, expor, mostrar documentos que ainda não devo mostrar. Não aqui. Não assim.
Prefiro plantar.
- Farei isso - respondi. - E, enquanto isso, sugiro que os senhores revejam, com carinho, a lista de parceiros do fundo cultural que tanto defendem. Porque se eu descobrir que alguém nesta mesa está limpando a mão suja de outro com o meu dinheiro, eu não venho mais aqui para conversar. Eu venho para fechar portos.
O observador de Marselha sorri. Pouco. O suficiente.
Dubois suspira.
- Vamos propor um meio-termo - ele diz, voltando ao terreno que conhece. - Reduzimos as taxas extraordinárias, destravamos as janelas por um período de teste. Em contrapartida, a Vitale&Co assina um compromisso de apoio ao fundo cultural, com cláusulas de transparência. Todos felizes.
Eu poderia dizer não. Poderia bater a mão na mesa, levantar, sair.
Mas o mundo não se ganha só com soco. Às vezes, se ganha com a assinatura certa no papel certo, enquanto outra mão, em outro lugar, puxa o fio que interessa.
Olhei para Mario. Ele dá aquele meio aceno que significa "vantagem tática".
- Está bem - eu disse. - Um período de teste. Três meses. E quero cópia integral de todas as atas do fundo nos últimos cinco anos. Se isso não for possível, a conversa termina hoje.
Dubois engole seco.
- Cinco anos é muito...
- Cinco anos é pouco - cortei. - Mas é o que estou pedindo.

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