Dante
Amar a Valentina, agora, parece coisa inteira. Não é metade de sentimento, nem amor com ressalvas, nem promessa com letra miúda. É amor completo, sem segredos, sem corredor escuro, sem porta trancada com o nome de outra mulher pendurado na maçaneta.
Três dias atrás eu era um homem tentando remendar o que eu mesmo rasguei. Hoje eu atravesso o corredor do hotel em Paris com a sensação estranha de que, pela primeira vez em muitos anos, o coração e o sobrenome andam no mesmo passo.
Ainda assim, quando o elevador se fecha e o número do nosso andar começa a descer, alguma parte de mim fica lá em cima, deitada do lado da Valentina.
Vejo ela na memória como deixei minutos atrás. Descalça, em pé no meio do quarto com a mão na barriga e aquele sorriso que é metade coragem, metade medo.
Foi difícil soltar. Foi difícil sair. Foi difícil deixar.
Não porque eu não confie nos meus homens. Não porque eu não confie em Sofia, que me olhou nos olhos e prometeu cuidar "dela e do pequeno" como quem faz voto em altar. Mas porque o mundo lá fora continua sendo o mesmo, mesmo quando o nosso quarto virou templo.
Eu confio neles. Eu não confio no mundo.
O elevador anuncia o térreo com um bipe educado. Mario e eu saímos para o lobby, ambos com o terno alinhado, ele com o tablet na mão, e aquele ar de quem já brigou com números antes do café.
Ele inclinou a cabeça em respeito.
- Don. Está pronto?
Pronto eu nunca estou. Mas eu vou.
- Vamos - respondi.
Saímos para o vento frio de Paris. O ar cheira a manteiga, gasolina e pressa. O carro preto nos espera na frente do hotel, discreto e caro, como tudo o que tenta ser invisível em cidades que gostam de olhar demais.
Entrei no banco de trás. Mario ocupou o assento da frente ao lado do motorista. O Sena passa a alguns quarteirões, invisível, mas presente como uma veia grossa sob a pele da cidade.
- Agenda - pedi.
Mario desliza o dedo pelo tablet.
- Primeiro, reunião com o consórcio dos portos e representantes da autoridade fluvial. Senhor Dubois, senhor Lambert, mais dois conselheiros que gostam de parecer técnicos e são apenas políticos de gravata importada. Depois, almoço "informal" com dois investidores do fundo cultural. À tarde, mesa fechada com o grupo que controla a janela de atracação em Le Havre. - Ele ergue os olhos. - E um observador, enviado direto de Marselha, para "acompanhar as tratativas".
- Observador - repeti, saboreando a palavra. - Gente demais para assunto que se resolve com meia dúzia de cláusulas.
- Assunto demais por trás das cláusulas - Mario devolveu, simples.
Olhei pela janela. Paris se desenhava em sacadas, pedras antigas, café em cada esquina, gente apressada. Mundo que corre sem saber que, em algumas salas, homens decidem quem atraca, quem afunda, quem passa, quem espera.
E no meio de tudo isso, Florença me acompanha na forma de uma mulher grávida e teimosa, descansando em um quarto com vista para a cidade.
Tirei o telefone do bolso. Abri a conversa com Valentina. A última mensagem é dela, cinco minutos antes de eu sair.
"Vai. E volta. Não demora entre um verbo e outro."
Eu respondi com uma foto da mão dela dentro da minha e um "sempre".
O dedo coçou para dizer que cheguei bem, que o trânsito estava suportável, que Mario já está implicando com o francês dos outros. Não escrevi. Eu prefiro guardar esse gesto para depois, quando tiver algo concreto a oferecer além de presença. Eu sei que ela entende, mas alguma parte de mim não esquece que, um dia, eu demorei demais para falar. E quase a perdi.
O prédio da reunião apareceu à frente como todos os prédios do poder moderno: vidro demais, concreto que finge neutralidade, bandeiras discretas, seguranças à porta com olhos de scanner.

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