Valentina
O aeroporto é um balé de vozes e malas, mas Dante parece abrir corredores invisíveis. Os seguranças nos cumprimentam com respeito, e a logística toda acontece como se alguém tivesse ensaiado antes. O check-in leva o tempo de um beijo. A sala de embarque tem poltronas que apoiam a coluna e um silêncio caro. Sofia tira fotos discretas do vidro, um pouco do azul do céu, um pouco da asa, uma tentativa de caber no momento.
Mario fingia que revisava a agenda, mas eu via de canto de olho que ele se distraía com a menina de vestido de bolinhas ao lado de Sofia, que tentava dar pipoca a um boneco. É um bom homem, pensei. Bons homens reconhecem leveza.
- Quer água com limão? - Dante perguntou, como quem oferece flor.
- Quero você do meu lado - respondi, teatral, só para ouvir a risada que me devolveu o mundo.
O embarque é rápido. O assento é amplo, o cinto, uma cinta de responsabilidade; o vidro entrega um pedaço de céu. Dante me dá a mão na decolagem, eu fingi coragem e ele fingiu que acredita. No ar, tudo vira parênteses. Duas horas entre o que fomos e o que vamos ser. Tirei o escapulário novo e o segurei na mão, só por um instante; Dante observava, respeitava, e beijava minha testa.
- Duas horas passam voando - ele disse, com ironia involuntária.
- Quem diria - respondi, encostando a cabeça no ombro dele. - Que voam mesmo.
Paris chegou como promessa cumprida. O avião baixou, a cidade surgiu cinza e dourada, magnética. A torre riscava o horizonte como um dedo velho apontando para o céu. Senti uma alegria pequena e redonda me ocupar.
O motorista nos esperava, Dante me guiava para fora com uma calmaria bonita. O vento de Paris tinha cheiro de manteiga e pressa. Entramos no carro, e a cidade foi nos dando boas-vindas pelos telhados: varais tímidos, janelas com cortinas rendadas, varandas com cadeiras solitárias. Sofia colou o rosto no vidro como criança em dia de passeio escolar, e Mario perdeu a batalha contra o sorriso, de vez.
O hotel cinco estrelas nos recebeu com o luxo que prefere sussurrar. Mármore que não grita, arranjos de flores que parecem nascer dali, um piano que toca sem pedir plateia. Na recepção, falavam baixo, escreviam certo, sorriam com os olhos. O elevador subiu devagar, como quem saboreia o destino. A suíte é mais do que um quarto; é uma tese sobre conforto: sala com tapete que acolhe pés cansados, janelas que emolduram a cidade, cama que parece mar, banheiro com banheira que convida o depois. Ao lado, uma suíte americana para Mario e Sofia, portas conectadas por uma saleta com sofás baixos e uma mesa onde um cesto de frutas parece ter sido pintado a óleo.
- Acomodem-se - Dante disse, pousando minha mala no suporte. - O jantar será... - ele olhou o relógio, avaliou horários, mediu compromissos - ...altamente flexível.
- Tradução: ele não sabe ainda - Sofia cochichou no meu ouvido, cúmplice.
- Tradução honesta - Dante confirmou, ouvindo, e tocou meu queixo com a ponta do dedo. - Eu vou descer para resolver o que nos trouxe até aqui. Prometi a você que não ia misturar dentro e fora, e pretendo cumprir. - ele se virou para Sofia. - Qualquer coisa, me liga ou ao Mario, cuida deles por mim. - ele disse a ela pousando a mão na minha barriga.
- Sim, senhor - ela respondeu e me olhou, e nós duas sorrimos.
Dante me puxou pela cintura, encostou a testa na minha e baixou o tom da voz para o registro em que as paredes aprendem a amar. O beijo que seguiu foi curto, mas inteiro.
- Volto antes de você sentir falta - ele disse.
- Eu sinto falta só de imaginar - confessei, tentando ser leve e sendo verdadeira.
- Então imagina pouco - ele devolveu, com olhos que deixavam bilhete no meu coração. - Eu volto logo.
Ele e Mario saíram. A porta fechou com um clique caro. O silêncio que ficou não é vazio; é oportunidade. Sofia se jogou no sofá da sala com a destreza de quem chegou ao parque de diversões dos adultos.

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