Valentina
Hoje fazem três dias que Dante me buscou na casa da Sofia, três dias que as coisas entre nós se acertaram e, exatos três dias, que ele mudou o pronome do quarto dele de "meu" para "nosso". Parece um detalhe pequeno, uma troca de pronomes que qualquer gramático ignoraria, mas no meu peito essa mudança tem o peso de uma chave. O que antes era porta trancada virou passagem. O que antes era silêncio virou abrigo.
No primeiro dia, confesso, uma dúvida baixou em mim feito sombra teimosa. Ela não tinha o tamanho do ciúme, mas a forma dele. E perguntava com voz fina: "Será que Lúcia ainda mora ali dentro, entre uma lembrança e outra? Será que eu sou só uma visita bonita nessa memória?". Eu não disse nada, porque há perguntas que a gente só confia ao travesseiro. Mas bastou eu lembrar de tudo o que Dante tem feito por mim nos últimos meses, a forma como ele me tirou da linha de tiro do mundo e me colocou no centro do coração dele, a paciência com as minhas tempestades, o cuidado bom com a minha gravidez, o modo como ele me escolhe em voz alta e também no silêncio e a dúvida, delicadamente, se dissipou. Ficar me pareceu o verbo mais seguro que já conjuguei na vida.
Sobre a viagem, ela ainda precisa ser feita. Sofia vai comigo. A ideia nasceu da urgência e virou companhia. É bonito quando Deus resolve problemas com pessoas de mãos boas.
O dia que iremos? Hoje.
E Paris me espera sem enfeites, e eu não quero que ela me veja com as inseguranças de ontem. Quero que me encontre sendo o mapa novo da nossa história. A decisão de ir foi dele; a de não levar Beatrice também. Ele não hesitou. Disse, com aquela certeza que move portos: "Se as portas não se abrirem sozinhas, eu as derrubo na marreta". Eu apontei o cuidado, ele respondeu com prioridade. Dante comentou, quase de passagem e eu percebi o cuidado de só tocar o assunto pelo necessário: que Beatrice não gostou de não ir, se sentiu descartada. "Entre nós há negócios", ele disse, sem espanto e sem raiva, "e se não há nada a discutir, não há por que estarmos próximos."
Eu confesso: gostei de ouvir. Não porque eu precise de alguém sendo retirado para eu me sentir colocada, mas porque vi ele honrando o que prometeu.
Fechei a mala pequena sobre a poltrona. Não vou levar muito: dois vestidos, uma calça confortável, um casaco azul, o de Palermo, uma echarpe leve, duas lingeries que fazem sorrir e um batom que devolve cor aos dias pálidos. Pousei a mão na barriga. Uma vida do tamanho de um segredo respirava dentro de mim.
- Você está pronto? - disse baixinho, como se o meu bebê me ouvisse.
Ouvi o som do corredor. O passo dele eu reconheceria entre mil: grave, firme, paciente. A maçaneta girou com a educação de quem pede licença. Ele apareceu na moldura da porta do nosso quarto, e a palavra "nosso" ainda acende luzes no meu peito.
- Posso entrar? - ele perguntou, e o canto dos lábios traiu um sorriso.
- Você mora aqui - eu respondi, sorrindo de volta.
Ele se aproximou devagar, como se cada passo fosse uma oração. Ele está usando uma camisa branca, as mangas dobradas, o relógio herdado, aquele perfume que parece feito de café forte e promessa antiga. Parou diante de mim e fez aquilo que mais amo: me olhou. Não me examinou como quem verifica uma peça da própria engrenagem; me olhou como quem reconhece a paisagem que escolheu viver.
- Está pronta? - repetiu, agora mais perto, a voz com o tom que abre as minhas manhãs por dentro.
- Quase - eu disse, pegando a echarpe. - Falta só um beijo que sirva de passaporte.
Ele riu baixo. Passando a mão com delicadeza pelos fios próximos à minha nuca e aproximando a testa da minha. O beijo veio tranquilo, presente, seguro. É beijo de quem não corre para chegar; de quem já chegou.
- Paris vai ter que ser muito boa para merecer o que estou sentindo - ele murmurou, roçando a boca na minha.
- Paris é só um cenário. O filme somos nós - respondi, encostando a mão no rosto dele.
Ele deslizou os dedos pela lateral do meu corpo, numa cartografia de respeito. Parou na barriga, com aquela reverência que me desarma.
- Buongiorno, piccolo - ele sussurrou, e o italiano na boca dele parece música. - Levo vocês dois por mim e por vocês. E trago vocês dois de volta por nós.
- Você me trouxe de volta antes mesmo de irmos - confessei.
- E pretendo repetir o feito todos os dias - respondeu sem hesitar. - Vamos?
Ele pegou minha mala. Não discutiu o peso, não disputou função, não me apressou. Pousou a mão livre nas minhas costas e me guiou com o cuidado que se dá a tesouros e tempestades. Descemos.
Teresa e Elisa nos esperavam no hall, como duas santas de avental. Teresa tinha o olhar brilhando e as mãos limpas de farinha. Elisa, firme, segurando um pacote pequeno embrulhado com fita.
- Não é despedida - Dante disse, antes que qualquer lágrima ouse nascer, com a voz prática que tenta salvar todo mundo do que sente. - São só alguns dias.
As três de dentro da cena, eu, Teresa e Elisa, ignoramos a tentativa de controle coletivo dele com a educação típica das mulheres que o amam. Teresa veio primeiro, me abraçou apertado, e eu senti o cheiro de pão, lavanda e infância que ela carrega.
- Leva um pouco de casa com você - ela disse, tocando na minha barriga, depois no meu rosto. - E traz de volta a paz que eu vi chegando.
Elisa me abraçou em seguida, um abraço que diz "fica tranquila que eu seguro as pontas do lado de cá". Encostou a testa na minha.
- Eu sei o tamanho da mulher que você é. Mas lá fora, por via das dúvidas, leve um pedaço de mim - falou, colocando o pacote na minha mão. - É um escapulário novo. O outro fica na cabeceira. Este conhece aeroportos.
Eu ri com água no canto dos olhos.

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