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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 68

Valentina

Hoje fazem três dias que Dante me buscou na casa da Sofia, três dias que as coisas entre nós se acertaram e, exatos três dias, que ele mudou o pronome do quarto dele de "meu" para "nosso". Parece um detalhe pequeno, uma troca de pronomes que qualquer gramático ignoraria, mas no meu peito essa mudança tem o peso de uma chave. O que antes era porta trancada virou passagem. O que antes era silêncio virou abrigo.

No primeiro dia, confesso, uma dúvida baixou em mim feito sombra teimosa. Ela não tinha o tamanho do ciúme, mas a forma dele. E perguntava com voz fina: "Será que Lúcia ainda mora ali dentro, entre uma lembrança e outra? Será que eu sou só uma visita bonita nessa memória?". Eu não disse nada, porque há perguntas que a gente só confia ao travesseiro. Mas bastou eu lembrar de tudo o que Dante tem feito por mim nos últimos meses, a forma como ele me tirou da linha de tiro do mundo e me colocou no centro do coração dele, a paciência com as minhas tempestades, o cuidado bom com a minha gravidez, o modo como ele me escolhe em voz alta e também no silêncio e a dúvida, delicadamente, se dissipou. Ficar me pareceu o verbo mais seguro que já conjuguei na vida.

Sobre a viagem, ela ainda precisa ser feita. Sofia vai comigo. A ideia nasceu da urgência e virou companhia. É bonito quando Deus resolve problemas com pessoas de mãos boas.

O dia que iremos? Hoje.

E Paris me espera sem enfeites, e eu não quero que ela me veja com as inseguranças de ontem. Quero que me encontre sendo o mapa novo da nossa história. A decisão de ir foi dele; a de não levar Beatrice também. Ele não hesitou. Disse, com aquela certeza que move portos: "Se as portas não se abrirem sozinhas, eu as derrubo na marreta". Eu apontei o cuidado, ele respondeu com prioridade. Dante comentou, quase de passagem e eu percebi o cuidado de só tocar o assunto pelo necessário: que Beatrice não gostou de não ir, se sentiu descartada. "Entre nós há negócios", ele disse, sem espanto e sem raiva, "e se não há nada a discutir, não há por que estarmos próximos."

Eu confesso: gostei de ouvir. Não porque eu precise de alguém sendo retirado para eu me sentir colocada, mas porque vi ele honrando o que prometeu.

Fechei a mala pequena sobre a poltrona. Não vou levar muito: dois vestidos, uma calça confortável, um casaco azul, o de Palermo, uma echarpe leve, duas lingeries que fazem sorrir e um batom que devolve cor aos dias pálidos. Pousei a mão na barriga. Uma vida do tamanho de um segredo respirava dentro de mim.

- Você está pronto? - disse baixinho, como se o meu bebê me ouvisse.

Ouvi o som do corredor. O passo dele eu reconheceria entre mil: grave, firme, paciente. A maçaneta girou com a educação de quem pede licença. Ele apareceu na moldura da porta do nosso quarto, e a palavra "nosso" ainda acende luzes no meu peito.

- Posso entrar? - ele perguntou, e o canto dos lábios traiu um sorriso.

- Você mora aqui - eu respondi, sorrindo de volta.

Ele se aproximou devagar, como se cada passo fosse uma oração. Ele está usando uma camisa branca, as mangas dobradas, o relógio herdado, aquele perfume que parece feito de café forte e promessa antiga. Parou diante de mim e fez aquilo que mais amo: me olhou. Não me examinou como quem verifica uma peça da própria engrenagem; me olhou como quem reconhece a paisagem que escolheu viver.

- Está pronta? - repetiu, agora mais perto, a voz com o tom que abre as minhas manhãs por dentro.

- Quase - eu disse, pegando a echarpe. - Falta só um beijo que sirva de passaporte.

Ele riu baixo. Passando a mão com delicadeza pelos fios próximos à minha nuca e aproximando a testa da minha. O beijo veio tranquilo, presente, seguro. É beijo de quem não corre para chegar; de quem já chegou.

- Paris vai ter que ser muito boa para merecer o que estou sentindo - ele murmurou, roçando a boca na minha.

- Paris é só um cenário. O filme somos nós - respondi, encostando a mão no rosto dele.

Ele deslizou os dedos pela lateral do meu corpo, numa cartografia de respeito. Parou na barriga, com aquela reverência que me desarma.

- Buongiorno, piccolo - ele sussurrou, e o italiano na boca dele parece música. - Levo vocês dois por mim e por vocês. E trago vocês dois de volta por nós.

- Você me trouxe de volta antes mesmo de irmos - confessei.

- E pretendo repetir o feito todos os dias - respondeu sem hesitar. - Vamos?

Ele pegou minha mala. Não discutiu o peso, não disputou função, não me apressou. Pousou a mão livre nas minhas costas e me guiou com o cuidado que se dá a tesouros e tempestades. Descemos.

Teresa e Elisa nos esperavam no hall, como duas santas de avental. Teresa tinha o olhar brilhando e as mãos limpas de farinha. Elisa, firme, segurando um pacote pequeno embrulhado com fita.

- Não é despedida - Dante disse, antes que qualquer lágrima ouse nascer, com a voz prática que tenta salvar todo mundo do que sente. - São só alguns dias.

As três de dentro da cena, eu, Teresa e Elisa, ignoramos a tentativa de controle coletivo dele com a educação típica das mulheres que o amam. Teresa veio primeiro, me abraçou apertado, e eu senti o cheiro de pão, lavanda e infância que ela carrega.

- Leva um pouco de casa com você - ela disse, tocando na minha barriga, depois no meu rosto. - E traz de volta a paz que eu vi chegando.

Elisa me abraçou em seguida, um abraço que diz "fica tranquila que eu seguro as pontas do lado de cá". Encostou a testa na minha.

- Eu sei o tamanho da mulher que você é. Mas lá fora, por via das dúvidas, leve um pedaço de mim - falou, colocando o pacote na minha mão. - É um escapulário novo. O outro fica na cabeceira. Este conhece aeroportos.

Eu ri com água no canto dos olhos.

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