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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 67

Dante

Carregar Valentina nos braços foi como resgatar o próprio coração. Cada passo que eu dava até o quarto parecia costurar o que havia se rasgado entre nós. O corredor respirava conosco, silencioso, cúmplice. Quando empurrei a porta, o estalar das dobradiças soou como o início de um novo tempo e o fim de um peso antigo.

O quarto era o mesmo de sempre, mas parecia outro.

Grande, imponente, marcado por sombras que o tempo não apagou. O piso de madeira antiga, o lustre de cristal que refletia a luz em fragmentos dourados, a lareira apagada e o cheiro de cedro misturado ao perfume do passado.

E lá, bem no centro da parede, a foto de Lúcia.

Ela estava como sempre: com aquele sorriso calmo, os olhos que pediam silêncio e o vestido azul que ela usava no dia em que Roma a viu ao meu lado pela primeira vez. A imagem tinha tanto poder que até o ar ficou suspenso.

Senti Valentina enrijecer nos meus braços, o olhar se perder na moldura. Não precisava de palavras, o incômodo dela era uma dor muda, e eu entendi.

Coloquei-a sobre a cama, com cuidado, e por um segundo fiquei ali, observando-a respirar. O lençol branco fez contraste com o cabelo castanho espalhado, e percebi que o amor, quando é verdadeiro, sempre se impõe à dor.

Fui até o quadro. Meus dedos tocaram a madeira fria da moldura.

- Já era hora, Lúcia. - murmurei.

Retirei o retrato da parede, encostei-o no corredor e fechei a porta atrás de mim.

Quando voltei, o quarto parecia mais leve. As sombras se aquietaram. O olhar de Valentina me procurou, uma mistura de incerteza e vulnerabilidade.

- Quem era ela? - perguntou, e a voz dela, mesmo firme, soou com o cuidado de quem pisa em chão sagrado.

Sentei ao lado dela, os cotovelos apoiados nos joelhos, e deixei a lembrança me invadir.

- Ela era a mulher que me ensinou a diferença entre paz e culpa. - respondi, baixo. - E por muito tempo, eu não soube distinguir uma da outra.

Valentina abaixou os olhos, os dedos deslizando sobre o lençol.

- Me conta. - pediu. - Eu quero entender o homem que amo, mesmo nas partes que doem.

Respirei fundo. A lembrança veio inteira.

- Foi em Roma. Eu tinha vinte e sete. Meu pai tinha acabado de morrer, e a família inteira me esperava na sacada do Palazzo, o novo Don, o novo Vitale. Roma cheirava a ferro e fé naquele dia. Entre o povo, vi uma mulher com um vestido branco simples e uma rosa nas mãos. Ela não gritava meu nome como os outros. Só olhava. E naquele olhar, havia algo que me lembrou que eu ainda era humano.

Valentina se sentou na cama, ainda atenta às minhas palavras.

- Nos encontramos de novo dias depois, numa igreja pequena, em Trastevere. Eu estava negociando com Deus o preço da minha alma; ela acendia velas pela mãe. Lúcia era feita de doçura. Falava pouco, ouvia o dobro. Tinha o dom de calar o caos dentro de mim sem dizer nada. Eu me apaixonei no exato instante em que ela me sorriu sem medo do meu sobrenome.

Fechei os olhos, e a lembrança me tomou inteiro.

- Logo fomos morar juntos, mas nos casamos só seis meses depois. Florença parecia sorrir quando ela passava. Ela amava flores e dias nublados, dizia que o céu triste era o mais sincero. Por um tempo, eu acreditei que o mundo podia ser simples. Até que o poder me lembrou que o amor e o perigo nunca dividem bem o mesmo teto.

Senti que minha respiração ficou mais pesada.

- Naquele dia, a deixei no carro, precisava resolver "um último detalhe". Eu a deixei sozinha, "só quinze minutos", eu disse. Quinze minutos depois, o carro explodiu no cais.

- Santo Deus! - Valentina disse colocando a mão na boca.

- O fogo a consumiu. E eu... - fechei os olhos - ...passei anos acreditando que ela tinha morrido por mim. Que Deus a levou no meu lugar. Carreguei essa culpa como se fosse aliança. Jurei que nunca mais amaria. Que nenhuma mulher pisaria neste quarto. Transformei luto em ferro, toque em transação, e o coração em cofre. Até você aparecer.

Valentina me observava em silêncio. Uma lágrima correu pelo rosto dela, mas não era ciúme. Era compaixão.

- Eu nunca quis competir com o que veio antes. - ela disse. - Eu só quero entender o que ainda vive em você.

Peguei a mão dela.

- O que vive em mim agora é você. - respondi, sem hesitar. - A Lúcia me mostrou o que era amor. Você me mostrou o que é renascer. Demorei para entender, mas entendi: ela não morreu no meu lugar. Ela morreu por causa do nome que eu carrego. E se existe algum consolo nisso, é saber que, enquanto viveu, eu dei o meu melhor. O amor por ela foi meu passado. Mas o amor por você, Valentina, é minha eternidade.

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