Dante
- Valentina... - tentei, baixo. - Eu vim te buscar.
- Eu sei. - a voz saiu limpa, dura. - O Don sempre acha o que quer.
Sentei na beira do colchão com uma distância que doeu. Ela se endireitou e trouxe os joelhos ao peito. Isso, e o cheiro de xampu barato na camiseta, me lembraram que o luxo não abraça. Quem abraça é gente.
- Eu errei. - comecei, sem rodeio. - O que eu disse ontem... foi errado no conteúdo e no lugar. Eu fiz você se sentir visita na casa que é sua. E isso... isso não se faz com a mulher que a gente escolhe. - A palavra "escolhe" me queimou a língua boa e necessária.
Ela respirou fundo, sustentando o olhar.
- Não foi só a frase do quarto, Dante. - ela disse, e meu nome, na voz dela, foi o tribunal que eu respeito. - Foi a Beatrice. Foi você sumir por quarenta minutos. Foi a assistente dela me cutucando enquanto você ria no corredor. Foi eu levantar da mesa e você não estar. Foi eu sumir e não me procurar, e o pior... Foi a viagem. Com ela. - o "com ela" veio sem grito, que é quando a verdade dói mais.
- Como sabe da viagem?
- Decidi deixar o orgulho e ir atrás de você. Porque o amor não é orgulhoso, ele só é amor. - disse, a voz em um fio, e aquilo doeu, porque era verdade, no fundo quem tem que vencer é sempre o amor. - Ouvi quando disse que ia para Paris, com ela. - e mais uma vez o "com ela" me atingiu.
- Me desculpe por ser orgulhoso, por demorar a te procurar. E eu cancelei Paris. - respondi, antes mesmo que o cérebro pudesse editar. - Cancelei na estrada. Só piso num avião quando o teu pé estiver do lado do meu.
Ela piscou, a defesa trincando um milímetro.
- E a Beatrice?
- A Beatrice é só uma porta que eu, se precisar, atravesso para resolver negócio. - falei, firme. - Eu não moro mais em corredor nenhum dela. A única casa onde eu moro é onde você está. E ontem, quando eu desapareci, eu não dei valor ao que você sente. Eu escolhi o jeito errado de cuidar de fora e descuidei de dentro. - Engoli em seco. - Me perdoa.
- Eu não sou um porto que você visita entre guerras, Dante. - ela rebateu, com a calma que devia me envergonhar mais que qualquer grito. - Eu sou a guerra e a casa. Eu sou a mulher que não quer pedir por um símbolo, mas quer ser o símbolo. Eu sou a mãe do teu filho. E você me deixou sozinha, no salão e na cama.
O ar ficou curto. Eu avancei um pouco a mão, parei a meio caminho.
- Eu não quero resolver as coisas com beijo, ou carícias, Valentina. - confessei, antes que ela me acusasse de tentar atalhos. - Eu preciso falar, eu te devo isso. Mas se eu não te tocar agora, eu desmonto.
Ela fechou os olhos um segundo, o que foi tudo para mim e talvez nada para ela. Fui até onde me deixou: a palma da mão sobre o joelho dela, leve, pedindo licença. O corpo dela não fugiu mais. Eu perdi a guarda do orgulho.
- Me escuta. - pedi, e a voz que saiu não era a do Don; era a do homem que falha e aprende. - Eu fui criado para dividir, setorizar, conter. Um quarto para cada coisa, uma porta para cada perigo. Eu te meti nessa arquitetura. E você não veio para ser parede. Veio para ser fundação. Ontem, quando eu disse "meu quarto", eu tirei você da fundação e te joguei num corredor. Eu estava errado. E eu estou arrependido. - A palavra "arrependido" mordeu o céu da boca. - Você me tornou um homem que prefere junto a seguro. E eu, no primeiro teste, desabei para o velho hábito.
Os olhos dela marejaram sem transbordar. Fui eu quem transbordou primeiro. Não do tipo que faz cena; do tipo que não consegue segurar.
- Me perdoa. - minha voz quebrou. Minha mão encontrou os dedos dela, e não larguei. - Eu vou lutar para nunca mais te magoar assim. Eu vou lutar todos os dias para te escolher por todos eles. Se você me deixar, eu reescrevo as plantas da casa e derrubo as portas que ainda restam entre nós. - Uma lágrima caiu. Eu não a escondi.
Ela me olhou por dentro, onde os segredos moram.
- Eu sei que te disse que não queria resolver as coisas com um beijo. - Comecei. - Mas... tem coisas que o beijo ajuda a lembrar.
Eu a puxei devagar, dando tempo para o corpo dela decidir. Ela veio. O beijo não foi remédio; foi memória. Memória do que somos quando o mundo para de falar. A mão dela subiu para o meu rosto, a minha desceu para a barriga dela, a vida da nossa vida firme entre nós dois.
Quando nos separamos, ela encostou a testa na minha.
- E Paris? - sussurrou.
- Paris só existe se você estiver comigo. - respondi, simples, sem poesia necessária. - E eu quero que você esteja. Não como figurante. Como a única presença que muda o resultado da reunião só por estar na sala.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida Ao Don Da Máfia