Dante
Florença parecia feita de esquinas que me acusavam. Virei a Santa Maria Novella três vezes, atravessei a Via de' Tornabuoni devagar, como se a vitrine de cada joalheria pudesse refletir o rosto que eu procurava.
Entre um semáforo e outro, eu repetia a frase que não devia ter dito, a bala que eu mesmo disparei: "Este é o seu quarto. O meu fica no fim do corredor." O eco da minha própria covardia me perseguiu pelo Arno inteiro.
- Idiota. - falei para mim mesmo, o volante rangendo sob os dedos.
Passei pela Piazza della Signoria, encostei onde não podia, perguntei a dois porteiros, três floristas, um taxista antigo que sabe de tudo e mais um pouco. Ninguém a tinha visto. O relógio do painel tentou ditar urgência; o coração já tinha decretado pânico.
O telefone vibrou. Mario.
- Don, e Paris? Confirmo o plano de voo com o comandante? - a voz dele vinha limpa, obediente e cruel, porque falava de um mundo que continua girando quando o nosso gira ao contrário.
Eu segurei o ar um segundo, como quem segura um animal pelo colarinho.
- Cancela. - respondi, sem margem para dúvidas. - Só viajo quando achar a minha mulher. E viajo com ela do meu lado.
Do outro lado, silêncio de quem entende hierarquia e amor.
- Sim, Don. - ele disse, e não me ofereceu um "tem certeza?". Mario aprende rápido quando eu já tive certeza por ele. - Vou reprogramar tudo e manter os portos em espera.
- E, Mario... - acrescentei, olhando o reflexo do meu próprio erro no vidro. - Se alguém perguntar o motivo, diz a verdade: a senhora Vitale vem primeiro.
- A senhora Vitale vem primeiro. - repetiu, como quem grava uma lei. - Qualquer novidade, ligo.
Desliguei. Afrouxei a gravata que ainda teimava no meu pescoço. Respirei o cheiro da cidade, pedra molhada, café passado e virei à direita a esmo. Teimosia move carros e montanhas. Culpa move mais.
O telefone tocou de novo, número desconhecido. Atendi.
- Don Vitale? - a voz era de mulher, jovem, firme e doce de um jeito que não negocia com o medo.
- Quem fala?
- Sofia. A vendedora da loja no shopping e amiga da Valentina. Ela veio me procurar hoje. - meu nome dito antes na boca dela tinha vindo sem tremor; o dela, da Valentina, veio com cuidado. - Eu a trouxe para minha casa. Ela comeu um pouco, tomou banho, e agora está dormindo.
Fechei os olhos em gratidão. Deus atende como pode: às vezes usa uma garota de loja para puxar um homem de volta ao próprio eixo.
- Me passa o endereço, por favor. - pedi, a voz rouca.

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