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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 64

Valentina

A noite passou como um animal inquieto, rondando o quarto sem nunca ir embora. O travesseiro ainda guardava o cheiro dele, aquela mistura de café, pólvora e alguma lembrança antiga que só o Dante tem.

Virei de um lado, virei do outro. O lençol era um deserto grande demais para uma mulher sozinha. Cada vez que fechava os olhos, via o momento em que ele disse "meu quarto". E o clique da porta voltava como uma sentença.

Passei a madrugada tentando convencer meu corpo de que dormir seria uma forma de descanso, mas a saudade não deixava. Porque saudade não dorme. Ela fica sentada na beira da cama, me olhando respirar, lembrando do peso da mão dele na minha cintura, do calor da pele dele colada na minha quando o mundo lá fora ainda é só ruído.

Senti falta do corpo dele para me proteger, do cheiro dele para acalmar o bicho dentro de mim. Senti falta até das nossas brigas, porque mesmo brigando ele estava ali e agora, não.

O dia clareou devagar, como se tivesse medo de entrar. Ouvi o som leve da maçaneta girando e fechei os olhos depressa, fingindo dormir.

Era Teresa.

O som do avental roçando na porta, o cuidado no toque, o silêncio de quem já sabe quando o coração da casa amanhece partido. Ela chamou, mas não insistiu. Só ficou ali um segundo, depois voltou pelo corredor. A porta fechou, e o barulho dela foi a confirmação do que eu já sabia:

Ele não veio.

Levantei devagar, o corpo cansado de tanto pensar. Escolhi uma roupa simples, uma calça leve, um suéter branco, e o casaco que ele comprou em Palermo.

Vesti sem olhar muito no espelho. A imagem refletida era de uma mulher que aprendeu a parecer forte, mesmo quando o peito está um campo minado.

Olhei o relógio. O ponteiro das oito já tinha se cansado de girar. Imaginei ele no escritório, revisando relatórios, dando ordens, tomando café. Esperei o som dos passos dele, esperei a voz, o toque na maçaneta.

Esperei e esperei, até entender que o silêncio é, às vezes, a resposta mais cruel.

Teresa voltou por volta das nove, a voz suave do outro lado da porta:

- Menina, eu tô aqui... trouxe o chá.

Não respondi.

Fiquei olhando para o teto, medindo o tempo entre as batidas do meu coração. Ela suspirou e disse baixinho:

- Tudo bem, eu deixo aqui fora, tá? - e o som dos passos dela se afastando foi como um abraço que não chegou.

Sentei na beira da cama e fiquei ali, imóvel, por longos minutos. Pensando se eu ia até ele, se batia na porta do escritório e fingia calma, ou se esperava que o orgulho dele e o meu encontrassem um meio-termo.

Mas orgulho é uma língua que o amor não entende. E o amor, quando ferido, finge que esqueceu como se fala. Levantei. Abri a janela. O jardim estava quieto. A fonte, fiel. As rosas que ele plantou há meses balançavam, ignorando a dor que a casa carregava.

Decidi ir até ele, que se dane o orgulho. Eu só queria meu homem. Parei na porta do escritório, estava entreaberta e foi nesse instante que ouvi a voz dele. Grave, firme, aquele tom que move o mundo.

- Prepara a viagem. Quero o avião pronto amanhã às cinco. Partida às seis. Agenda fechada com quem interessa, não com quem quer aparecer. E avisa a Beatrice.

A frase atravessou o ar e me atravessou junto. Eu não precisava ouvir mais nada. Nem "volto logo", nem "te amo", nem "é trabalho".

Ele ia viajar. Sem mim. Mas com ela.

O chão pareceu se afastar um pouco dos meus pés. A cabeça latejou. O coração... coitado, tentou fingir dignidade. Respirei fundo, passei a mão na barriga e senti o pequeno movimento dentro de mim.

- Calma, meu amor. - sussurrei. - A mamãe sabe o que faz.

Peguei o casaco, o escapulário e o batom mais antigo da penteadeira. Olhei em volta uma última vez: o quarto parecia me olhar de volta.

"Fica", ele dizia em silêncio. Mas ficar é mais difícil quando o amor se ausenta antes do corpo. Desci devagar, sem fazer barulho. A biblioteca estava vazia, as cortinas abertas demais. Empurrei a porta lateral e saí.

O ar da manhã me acertou o rosto como um tapa fresco. Era quase dez horas quando pisei na calçada. E, pela primeira vez em meses, eu não tinha para onde ir.

Andei. Sem direção. O vento levantava os fios soltos do cabelo e o casaco batia nas pernas. Eu só sabia que, por agora, o Dante não era o meu destino. As ruas de Florença pareciam me observar em silêncio.

As vitrines, os cafés, os motoristas, todos com o mesmo olhar de quem sabe: ali vai uma mulher fugindo do que ama.

A manhã passou devagar. Em algum momento, um nome me veio à cabeça como uma luz: Sofia. A vendedora do shopping. A menina que me ofereceu um sorriso quando eu ainda só tinha medo. E que depois me ofereceu amizade, que eu sem me fazer de envergonhada, aceitei. Se havia um lugar seguro, seria perto dela.

Caminhei até o ponto de táxi perto da alameda. O motorista me olhou pelo retrovisor e perguntou o destino.

- Shopping Riviera. - respondi. - Entrada principal.

O carro seguiu. O vidro mostrava a cidade correndo enquanto eu tentava segurar as lágrimas. Elas vinham como convidados que não pedem licença.

Chegando lá, desci antes mesmo de o táxi parar completamente. Entrei apressada, o coração batendo errado. A loja de Sofia ficava no segundo andar, entre uma joalheria e uma cafeteria. E quando ela me viu, os olhos dela se arregalaram de susto e ternura.

- Valentina?! - ela correu até mim. - Meu Deus, o que aconteceu?

- Nada... - menti, e o choro me desmentiu. - Ou talvez tudo.

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