Dante
- Está bem - falei, depois de medir o que podia. - Prepara a viagem. Eu quero o avião pronto amanhã às cinco. Partida às seis. Agenda fechada com quem interessa, não com quem quer aparecer. E... - a palavra me pesou a boca - ...avisa a Beatrice. Se é ela quem abre a porta, usaremos a porta.
Mario anotou, fiel. Depois levantou os olhos, com cautela.
- E a senhora Valentina?
- Eu falo com ela. - prometi. - Hoje.
Ele hesitou. "Hoje" é a palavra que me cobra e ele sabe. Eu acrescentei:
- E, Mario... nenhuma menção desnecessária de nomes nos corredores. Aqui dentro a gente respira, lá fora eles farejam.
- Sim, Don. - ele recolheu os papéis. - Mais uma coisa: o fornecedor do "chá" voltou a dar sinais de vida. Mandou um catálogo novo para a cozinha da casa dos Morello. Não foi para a nossa, mas o raio de ação está claro.
O nome "chá" e "Morello" na mesma frase tem espinhos.
- Rastreia. - ordenei. - Pega o catálogo, segue o motoboy, fotografa o depósito. Quero quem assina a nota, quem fecha a carga, quem apaga a luz no fim do dia.
- Já estamos seguindo o fio.
- Ótimo. Vai.
Ele recolheu a pasta. Antes de sair, virou:
- Don... sobre Paris... a senhora Beatrice costuma falar alto ao telefone. - Um aviso-lâmina, colocado com respeito. Assenti devagar. Entendi o recado.
Quando a porta fechou, fiquei só com a mesa e com a minha promessa. Abri a gaveta, tirei uma foto da Valentina que fiz questão de mandar revelar só para ter ali quando precisasse ancorar. Passei o polegar sobre seu rosto como se fosse possível lá do seu quarto ela sentir o meu carinho. "Seu quarto", "meu quarto", não são os pronomes que quero mais usar com ela, a partir de hoje o pronome certo é "nosso".
Nosso quarto.
O relógio correu, o sol atravessou a sala, Teresa entrou por volta do meio-dia, os olhos de providência.
- O senhor não vai almoçar? - perguntou, já sabendo a minha resposta.
- Não hoje. - falei, sem levantar a cabeça. - Traz só um café.
Ela trouxe, ficou de pé com a xícara na mão, não me entregou. Quando Teresa não entrega de imediato, é porque vai entregar outra coisa junto.
- A menina Valentina não saiu do quarto, Don - disse, com a voz de quem mexe em porcelana. - Bati duas vezes ao longo da manhã. Não quis insistir. Sei quando um silêncio precisa terminar antes da gente começar.
A frase entrou na carne.
- Eu vou até lá mais tarde - respondi, mentindo para mim primeiro.
Teresa pousou a xícara, me olhou por cima dos óculos inexistentes.
- Mais tarde às vezes chega muito tarde, senhor.
Respirei. A caneta pesou nos dedos. Fiz um gesto curto de quem libera a mãe que não é mãe, mas manda na casa como se fosse.
- Obrigado, Teresa.
Ela saiu. O café esfriou sem que eu reparasse. Assinei contratos, revisei memorandos, tracei rotas, mandei mensagens com três palavras e uma sentença. De tarde, Mario voltou e trouxe mapas e prazos. Eu consenti com a cabeça sem largar o fio que me puxava escada acima.
A tarde correu. O sol trocou de parede. Eu disse "não" para a comida outra vez. Teresa respondeu "vou deixar aqui", e deixou, e a bandeja ficou me olhando como um cachorro fiel. Às seis, a luz do escritório virou ouro velho. Às sete, cobre. Às oito, chumbo.
A porta abriu de leve. Teresa. Avental um pouco amassado, o cansaço nos ombros, a certeza no meio das sobrancelhas.
- Don... - usou a voz de quando chama meu nome no singular humano, não no plural dos negócios. - A menina não saiu do quarto o dia todo. Não respondeu aos chamados. O chá que deixei na bandeja do corredor não foi tocado. O caldo também não. Eu não gosto de bater sem parar, mas... - respirou - ...eu não gosto mais ainda de barriga vazia.
O estômago me subiu à garganta. A cadeira arrastou um pedaço da minha pressa pelo chão.
- Onde está o Mario? - perguntei, já levantando.
- Na guarita, conferindo turnos.
- Manda esperar lá fora. - foi automático. - E, Teresa... - olhei a mulher que me tutela quando eu esqueço - ...obrigado.
Subi os degraus dois a dois, o corredor com o abajur aceso de sempre, o tapete que aprendeu a minha passada. A porta dela, a mesma de hoje cedo, me esperava com a serenidade das coisas que não suspeitam. Bati. Uma vez. Duas. Três.
- Valentina? - o meu "Valentina" é chave-mestra; abre espanto, abre riso, abre colo.

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