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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 62

Dante

A noite anterior não acabou quando fechei a porta do carro. Ficou inteira dentro de mim, como fumaça que não encontra saída. Eu deitei no meu quarto antigo, "o meu", como eu disse e me arrependi no mesmo segundo, e passei horas encarando o teto, ouvindo a fonte do jardim traduzir o que eu não quis dizer.

Dormir? Não. Passei a noite em claro. A frase tem o peso exato do que aconteceu.

Rebobinei devagar: Beatrice no topo da escadaria, vinho nos lábios, o vestido preso ao corpo como estratégia; a maneira como ela pronunciava meu nome sem apressar sílabas, como quem guarda o ritmo de uma música antiga.

Houve um passado ali? Houve um corredor em que eu cheguei ao fim antes da palavra "nós" existir na minha vida, e esse corredor tem portas que não precisam mais de mim. Eu disse a verdade para Valentina: "não há o que temer". Disse e sustento. Mas sei reconhecer quando um olhar tenta acender uma lâmpada que eu desliguei.

Beatrice me puxou por cinco minutos que viraram quarenta. Mostrou pastas, planilhas, plantas do projeto de Palermo; falou de navios-hospital, de doadores "dificílimos", dessa caridade com verniz e lâmina. Riu de uma lembrança, não de nós, porque "nós" não existe no plural "eu e ela", mas de um jantar antigo com o marido, quando ainda respirávamos o mesmo ar de guerra e gala. E riu tocando meu braço como se tocasse a partitura de um costume.

Não precisei olhar para saber que o salão nos assistia. Não precisei adivinhar para entender que a minha mulher, sentada à mesa, contava os minutos na língua da ansiedade.

E então, o corredor. Giovanni com as mãos no braço de Valentina. O sangue ficou estreito dentro das veias; a mandíbula assentou a pedra que eu carrego para momentos assim. Eu não sou um homem ciumento; eu sou o homem que protege o que escolheu. Ciúme é insegurança, proteção é arquitetura. E a minha arquitetura ruge quando encostam no que é meu.

Depois... a briga. Palavras com farpas, verdades sem abajur, o assunto do "meu quarto" tirado do túmulo. Eu quis dar um passo e abraçar; mas dei meio passo e parei. Ela me pediu mesa, presença, símbolo; eu entreguei ferro, controle, silêncio. E no fim, a frase que não devia ter saído no tom que saiu:

- Vou dormir no meu quarto.

O clique da porta ainda toca no meu ouvido como tiro abafado.

O céu clareava quando eu levantei. O espelho me devolveu os olhos que eu herdei do meu pai, olhos de aço quando o coração está mole. Liguei o chuveiro, tapei a boca com a mão, e deixei a água fria tentar apagar a noite. Não apagou. Vesti uma camisa branca, a calça de pregas, o relógio que marca horas e pecados. Abri a porta do quarto e, por reflexo, parei diante da porta dela.

A maçaneta parecia quente, como se guardasse um pulso. Eu encostei a testa na madeira por um segundo, o suficiente para ouvir meu próprio erro repetindo: "Este é o seu quarto, Valentina. O meu fica no fim do corredor." Quem ama não mede a casa em possessivos. Eu sei. Ainda assim, afastei a mão. O silêncio lá dentro me disse que ela já devia ter descido para o café. E eu, que sempre escolho o difícil, escolhi acreditar no silêncio.

Desci.

A cozinha tinha o cheiro bom de Teresa cozinhando esperança: café passando, pão abrindo o peito do forno, limão e mel fazendo as pazes no ar. As janelas deixavam entrar uma luz de igreja, dessas que pintam os cacos e os inteiros com a mesma dignidade.

- Don - Teresa me cumprimentou, enxugando as mãos no avental. - Bom dia que Deus nos dê.

- Que dê - respondi, tentando que o "bom" soasse verdadeiro. - A Valentina já desceu?

Teresa ergueu o rosto, como quem escuta um sino interior.

- Ainda não, senhor. Achei que viesse com o senhor.

- Não. - Olhei a mesa posta para dois, a xícara pequena que é sempre a dela, o pires com bolacha de água e sal porque enjoo tem manias. - Manda chamá-la, por favor. Diz que o café esfria e que eu estou esperando.

Teresa assentiu com um "sim" que também era bênção. Eu sentei. O relógio da parede repetiu o seu "tic" como um professor de paciência. Escutei os passos de Teresa subindo, ouvi a pausa do lado de fora do quarto, o toque discreto na porta, o breve "menina?", o breve silêncio. Voltou alguns minutos depois.

- A menina Valentina ainda dorme - disse, com a suavidade que usa quando me dá notícias que não quero.

Eu medi a frase com o ouvido e com a experiência.

- Dorme? - repeti, como quem testa a palavra. - Estranho. Ela nunca perde a hora da náusea.

Teresa sorriu de canto.

- Às vezes, quando a alma cansa, o corpo se comove e concede um sono bom. Quer que eu insista?

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