Valentina
O corredor lateral parecia ter sido construído para guardar sussurros. A música do salão chegava filtrada, como se alguém tivesse colocado algodão nos ouvidos da noite. Luz amarela, mármore polido, um vaso com lírios que fingiam inocência. E as mãos dele nos meus braços, firmes, conhecidas de outro tempo que eu não queria mais habitar.
- Valens... - me chamou pelo apelido que um dia ele me deu, para me mostrar o quão forte eu era. "Valens, seu nome em latim amor, para lembrar o quão forte e valente é minha garota". Mas hoje ele não teve o mesmo peso que antes, não tinha amor, era carregado de culpa.
- Não me chame assim, você perdeu esse direito meses atrás. - tentei manter a voz firme.
- Valentina então... - ele disse com dor. - Só me escuta um minuto, por favor.
Eu o olhei como quem encara um espelho rachado. Olhei bem para o homem que me vendeu como quem vende um relógio de família para pagar uma dívida. O passado empurrou meu estômago para cima; a náusea não era só da gravidez.
- Tira a mão. - Eu disse baixo, sem tremor. - A última vez que você encostou em mim custou caro.
Ele obedeceu. Deu um passo para trás, como quem tem medo de profanar um altar. O rosto dele parecia mais magro; os olhos, mais velhos do que meses conseguem fazer. Uma barba mal feita tentando dar ares de arrependimento àquilo que o arrependimento tardio nunca redime.
- Eu mereço o seu ódio. - Começou, e eu revirei os olhos. - Mas se você soubesse como foi... como eu...
- Eu sei como foi. - cortei, sem elevação de tom. - Você me pesou na balança e decidiu que eu valia menos do que a sua urgência.
Ele respirou fundo; parecia estar se preparando para atravessar um mar com os pés.
- Eu tava sendo pressionado, Valentina. Gente grande, gente perigosa. Se eu não aparecesse com dinheiro, não ia sobrar nem o meu nome. Eu fiz a pior escolha possível, eu sei, mas... - a voz dele quebrou - ...eu não sabia que você e ele...
- Que a gente ia se amar? - terminei, sem piedade. - Nem eu sabia. Mas isso não devolve nada. Não te lava.
- Eu não vim pra me lavar. Vim pra pedir perdão.
A palavra ficou no ar, pedindo cadeira. Perdão. Tem gente que usa como chave mestra; acha que abre qualquer porta. Eu cruzei os braços, os dedos envolvendo o próprio corpo como quem fecha uma janela.
- Perdão é um verbo caro. E você não tem crédito comigo.
Ele assentiu, como quem aceita um veredito. Ainda assim, não foi embora.
- Eu não durmo, Valentina. - continuou, encarando o chão por um segundo - A cena de você indo embora... o olhar que me deu... eu escuto aquela porta batendo toda noite. Eu pensei que você ia definhar. Pensei que o Vitale ia te trancar, apagar a luz dos seus olhos. E então hoje eu te vi... - ergueu o rosto, uma ponta de luz suja no olhar - ...de vestido, segura, sorrindo. E eu entendi o que eu não queria entender: você ficou viva longe de mim. Mais viva do que jamais esteve ao meu lado.
- Pois então aprende a lição e vai. - minhas palavras foram uma tesoura.
- Eu quero consertar o que dá pra consertar. - apressou-se - Eu sei coisas que podem ajudar o Don.
- Não me use para marcar encontro com o Dante. - eu avancei um passo, o vestido sussurrando raiva. - Se tem algo a dizer ao meu homem, diga como homem. Não como rato encostando na minha barra.
A palavra "meu homem" incendiou um canto da boca dele de ciúme antigo. Ele disfarçou mal.
- Eu não vim por ele. Vim por você. - e foi neste instante que o Giovanni mais antigo reapareceu, o que me conhecia nos defeitos e queria me usar nas virtudes - Eu te amei à minha maneira torta. Errada. E quando vi você hoje... eu entendi que ainda amo.
Eu ri. Não foi bonito, não havia humor.
- Amor que vende não é amor. É moeda. Você me ama como quem ama uma nota alta: pelo que ela resolve.
- Não fala assim... - ele pediu, os ombros caindo. - Eu me odeio pelo que fiz. Me odeio cada dia. Mas eu juro por tudo que me resta: eu teria voltado atrás se soubesse para onde você ia. Eu não sabia que o Dante... que vocês...
- Que ele ia me escolher todos os dias? - eu disse, de leve, só para lembrar a mim mesma. - Giovanni, acabou. O que tinha entre nós não existe mais. Não existe porque você matou. Eu não tô te punindo; tô te dizendo o obituário.
Os olhos dele marejaram. Eu não comovi; aprendi a diferenciar lágrima que lava de lágrima que quer negociar. Ele tentou mais uma vez:
- Só me deixa fazer certo agora. Me ouve. Essa gente que encosta no meu pai, que circula nesse salão com cheiro de flor cara... eles não querem só o Dante, Valentina. Agora querem você.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida Ao Don Da Máfia