Valentina
Teresa sempre diz que algumas noites nascem com a claridade errada. Não é a luz do abajur; é a luz do peito, que demora a acender. Fiquei diante do espelho tentando convencer meus olhos de que o vestido off-white era escolha e não armadura. Prendi metade do cabelo para trás e deixei o resto cair pelas costas, como se o próprio cabelo pudesse me proteger do mundo.
Dante apareceu no batente da porta com o paletó no ombro e aquela gravata que eu amava odiar, a de listras estreitas, cinza-chumbo, que sublinhava o poder dos olhos dele. Ele encostou o ombro na madeira e me olhou como quem descobre um país.
- Amore... - a voz saiu baixa, um beijo antes do beijo - você é o tipo de visão que resolve guerras.
- Resolve ou começa? - provoquei, porque quando fico nervosa meu humor pede licença para nascer primeiro.
Ele riu de canto, se aproximou, e encaixou a mão na curva da minha nuca. O toque dele tinha liturgia.
- Começa na paz - sussurrou. - E termina na minha cama.
- Don Vitale, o senhor está com pressa de encerrar um evento que nem começou.
- Sempre que a festa não é você, eu tenho pressa de terminar.
Deixei o riso escapar, mas a mão trêmula denunciou o resto: ando enjoada, ando sensível, ando grávida e frágil no osso que a coragem não alcança. Ele percebeu antes de mim. Ajeitou o tecido na altura do meu busto com cuidado, sem pressa, como quem reza. E beijou meu pulso.
- Se enjoar, eu tiro você de lá - prometeu, simples. - Se doer, eu paro o mundo.
- Não para o mundo por mim, Dante - pedi, honesta - só me segura firme.
- Já é o meu ofício. - Ele sorriu, sério.
Teresa apareceu atrás dele com uma caixinha de veludo nas mãos e cara de quem guarda segredos dentro de joias.
- Antes que saiam jogando classe pela cidade - ela disse - me dá essa orelha aqui, menina.
Abri espaço, obediente, e Teresa prendeu em mim um par de pequenas pérolas, discretas, destemidas.
- Pérola é uma lágrima que aprendeu a se defender - explicou, orgulhosa. - Se a noite puxar você para baixo, essas duas te puxam de volta.
- Obrigada. - abracei Teresa com a pressa de quem quer levar benção na roupa.
Dante me ofereceu o braço e descemos. No carro, ele deixou a música do motor ser suficiente. Mais do que som, era presença. A cidade avançava com aquele brilho calculado de possibilidades e ameaças.
- Quem organiza hoje é a Beatrice Morello - ele disse, como quem entrega uma informação neutra. - A família dela levantou boa parte do hospital novo. Eu a conheço há... algum tempo.
"Algum tempo." A frase derramou uma água fria em mim sem pedir licença. Esfreguei o polegar no próprio anelar, distraída. Dante notou o gesto.
- Intimidade? - perguntei.
- História. - Ele respondeu sem rodeios. - Respeito. E dívida de gratidão antiga com o marido que ela não tem mais. - Desviou os olhos, depois os devolveu. - Não há o que temer, vida. Eu já cheguei ao fim dos corredores dela.
- Confio. - respondi, e confiei mesmo. Só não confio na minha cabeça, às vezes. Porque às vezes ela inventa sombras onde só há móveis.
Chegamos. O salão era um oceano de cristais controlados. As cortinas pesavam bonito, um vinho profundo, quase noite. Velas altas, prata, as mesas com arranjos de flores claras e um perfume que lembrava jasmim... ou lembrava perigo? Não sabia dizer.
O tecido dos meus ombros repuxou um tiquinho: era o instinto me puxando pela manga para que eu prestasse atenção. Dante pousou a mão nas minhas costas, não como dono, como porto, e me conduziu pelo hall.
Eu reconhecia esse andar dele: o Don que vestia o homem, não o contrário. O mundo o cumprimentava como se o nome dele fosse um título. E eu, ao lado, era a mulher que sorri mas não baixa a guarda.
- Senhora Vitale. - ele sussurrou entre os dentes, com humor. - Eu sei que você está fazendo a contagem de saídas de emergência.
- Duas laterais, uma principal. - respondi. - E uma varanda que dá para o jardim, com um portão de serviço.
- Eu te amo por isso. - apertou de leve a minha cintura. - Por me acompanhar de olhos abertos.
O salão do evento parecia uma constelação domesticada. Lustres de cristal pendiam como luas presas, o chão refletia o dourado das luzes e o perfume das mulheres se misturava com o de vinhos caros e segredos não ditos.
Dante me conduziu com a mão firme nas minhas costas, o toque discreto e possessivo o suficiente para dizer "ela é minha" sem precisar de uma palavra.
Os flashes das câmeras cortavam o ar, e o som das taças brindando se espalhava como chuva fina. A cada passo, eu sentia o olhar de curiosidade se arrastar em nós, não era apenas sobre o Don, era sobre a mulher ao lado dele.
- Está tudo bem? - ele sussurrou no meu ouvido, a voz baixa, quente.
- Tá - menti um pouco. - Só ainda não me acostumei com tanta gente olhando.
- Que olhem. - respondeu. - Hoje o nome Vitale caminha com o seu.
A frase me fez sorrir, mesmo com o friozinho na barriga. No topo da escadaria, uma mulher se aproximou. Alta, bonita, de cabelos castanhos intensos e um vestido vinho que parecia feito da própria palavra "poder". O sorriso era lento, calculado, e os olhos... tinham uma serenidade estudada, dessas que escondem tempestades.
- Dante Vitale... - ela pronunciou o nome como quem degusta algo familiar. - Quanto tempo.
Ele se virou e o modo como seus ombros se endireitaram me fez prestar atenção.
- Beatrice. - ele respondeu, cordial. - Você continua... impecável.
- Aprendi com os melhores. - ela respondeu, os olhos me estudando antes mesmo de Dante me apresentar. - E essa deve ser...?
- Minha esposa. - ele disse sem hesitar, o orgulho quase visível. - Valentina Vitale.
O sobrenome dele como se fosse meu, saindo da boca dele, me atravessou como um perfume novo. Beatrice sorriu. Um sorriso que não era ofensivo, mas também não era inocente.

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