Dante
Depois do café, Mario apareceu na porta da varanda, alinhado como sempre, com o rosto de quem carrega notícias que não se dizem na frente de criadas.
- Don, está tudo pronto.
Assenti, e ele entendeu o recado silencioso.
- Espere lá fora, Mario. - pedi. - Quero um minuto com minha mulher.
Teresa, esperta, puxou Elisa e as duas desapareceram com um pretexto qualquer sobre louças. Assim que a porta se fechou, Valentina se virou pra mim.
- O que foi? - perguntou, desconfiada.
- Despedida. - falei, simples. Ela arqueou a sobrancelha.
- Você é dramático, Don. Vai ali e já volta.
- Mesmo assim. - murmurei, puxando-a para o meu colo.
Ela se encaixou de um jeito que sempre parece destino. Minhas mãos pousaram em sua cintura. O beijo começou calmo, depois virou necessidade. As carícias nasceram sem pressa, o toque na curva do pescoço, o arrepio na pele dela, o gemido contido que sempre me desmonta.
- Dante... - ela sussurrou, prendendo o ar. - Você vai me atrasar.
- Eu sou o atraso mais bonito da sua vida. - falei, sorrindo contra a boca dela.
Ela riu, depois suspirou.
- Me promete que vai ter cuidado?
- Prometo. - beijei a ponta do nariz dela. - Prometo que volto inteiro.
Inclinei o rosto e deixei um beijo leve em sua barriga.
- Cuida da mamãe, piccola. - sussurrei. - O papai já volta.
- Quem te disse que é uma menina?
- Alguém me sussurrou em sonho. - respondi com um sorriso.
- Pois para mim, ele sussurrou que é um menino. - Valentina disse com convicção.
- Vou gostar também, mas gosto da ideia de ter uma menina linda como a mãe. - falei passando a mão por seu rosto.
- E eu da ideia de ter um menino como o pai. - ela sussurrou e me beijou.
- Nós sempre podemos fazer mais, gosto de imaginar na casa cheia de piccoli, minha linda mulher me esperando. - passei o nariz pelo seu pescoço. - Família grande, é o sonho da minha vida desde que você entrou nela.
Valentina passou os dedos no meu cabelo, os olhos marejados.
- Vai logo, antes que eu mude de ideia e te tranque aqui pra sempre.
- Um dia eu deixo. - respondi, me levantando. - Mas não hoje.
Ela riu e me empurrou. Saí com o cheiro dela grudado na pele.
O carro me esperava em frente à casa. O vento de Milão tinha o gosto agridoce das coisas que mudam. Mario dirigia em silêncio, o olhar preso na estrada.
- Don... - ele começou. - Tenho algo.
- Fala.
- Lembra da investigação que deixamos parada há dois anos? - hesitou. - A de Lúcia.
O nome dela ainda me atingia como faca cega. Fechei os olhos por um instante. O rosto da Lúcia voltou: os cabelos castanhos, o sorriso de quem acreditava em redenção, o perfume de jasmim e chuva.
- Continua. - pedi.
- Um contato em Palermo confirmou que o grupo por trás da emboscada... não era o que pensávamos.

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