Valentina
Acordei como quem volta de uma maré longa: os sentidos vinham em ondas pequenas, primeiro o cheiro do limão da casa, depois o toque morno de uma mão conhecida, por fim a respiração de alguém que eu reconheceria até no escuro do mundo.
- Bom dia, amore... - a voz dele veio baixa, quase um toque - eu tô aqui.
Pisquei, devagar, para acostumar os olhos ao quarto à meia-luz. O primeiro rosto que encontrei foi o dele, e só isso ajeitou as coisas por dentro como quem endireita uma moldura torta.
- Você voltou... - minha voz soou arranhada de sono e alívio.
- Voltei. - Ele encostou a testa na minha, como quem sela promessas no jarro das coisas importantes. - E hoje eu não saio daqui.
Fiquei alguns segundos olhando. É engraçado como o amor tem a própria matemática: você soma um par de olhos cinzas, subtrai um pouco de medo, multiplica por um beijo baixo na testa e o resultado é que o peito aprende a respirar outra vez.
- Tô leve - murmurei.
- Deixa eu melhorar ainda mais isso - ele sorriu de canto. - Trouxe água, trouxe você de volta, e a Teresa tá vindo com pão.
- Teresa é a santa da cozinha - brinquei, com uma preguiça boa. - E você...
- Sou seu. - ele completou, simples, sem pose. O "sou seu" dele sempre foi o meu jeito favorito de acordar.
Ele me ajudou a sentar. Não houve pressa. Dante tem um talento raro: o de transformar gestos simples em cuidado. Almofada sob as costas, o cobertor puxado só até metade, minha mão envolvida na dele, os dedos aquecendo os meus.
- Como você se sente? - perguntou.
- Como quem foi costurada por dentro - ri baixinho. - Com linha de lavanda e paciência.
- Paciência foi o que me faltou - ele admitiu, sem esconder a culpa. - Mas hoje... hoje é dia de corrigir palavras.
- Palavras? - ergui a sobrancelha.
- "Breve" morreu. - Ele disse como quem assina um decreto doméstico. - Com você, é "agora".
Sorri, boba e inteira. E beijei a mão dele, porque às vezes é na mão que a gente guarda os "sim" mais importantes.
Teresa entrou com a bandeja e o seu evangelho de pão quente.
- Bom dia, minha menina. - Deu um beijo na minha testa, outro na bochecha do Don, como quem abençoa soldados vitoriosos. - Vai levantar devagar, tomar um banho rápido de princesa que não precisa provar nada pra ninguém, e depois vai comer. O sol tá de visita na varanda.
- Sim, madonna Teresa - respondi, obediente e rindo.
- Elisa foi armar a mesa lá fora - Teresa anunciou com orgulho de general - e eu trouxe o chá de limão que cura mal-entendido e devolve juízo.
- Cura mal-entendido? - Dante fingiu espanto. - Eu vou precisar de uma chaleira inteira.
- Vai sim, Don. - Teresa piscou. - Mas pelo menos hoje o senhor tá em casa pra tomar.
Ele riu do próprio arrependimento com doçura. Depois me carregou no colo até o banheiro como se fosse novidade, e todo dia com Dante tem um pedaço de primeira vez.
- Eu consigo - protestei de mentira, grudando na nuca dele.
- Eu quero - ele respondeu, sério no jeito de homem que aprendeu a cuidar. - Me deixa reparar o que dá para reparar.
O banho foi rápido, morno, simples e, ainda assim, tudo. Ele lavou meu cabelo com a mão aberta, dedos firmes que respeitam a raiz. Eu fechei os olhos e deixei. Em cada movimento, uma frase curta: estou aqui; não solto; respira comigo. Quando terminei, ele me enrolou na toalha.
- Você é o meu lugar de voltar. - sussurrei.
- E você é o meu motivo de ficar. - ele devolveu, a voz grave e boa.
Vesti um vestido leve, azul claro, e prendi metade do cabelo. Ele ajeitou a fita, sem pressa, como quem amarra uma data nova. E nós dois sorrimos do mesmo sorriso.
A varanda era uma fotografia que Teresa amarrou com cheiro. Mesa posta com toalha de linho, o bule de chá, pão dourado, queijo, frutas cortadas do jeito geométrico que a Elisa considera sagrado. Um vaso pequeno de lavandas no centro. O sol educado, o vento fazendo plumas nas cortinas. E a fonte, a nossa fonte, tocando o fundo de tudo.
- Senta aqui - Dante aproximou a cadeira. - Hoje o mundo serve a senhora Vitale.
- "Senhora Vitale"? - perguntei arqueando a sobrancelha. - Até onde minha memória vai, Rojas é o meu batismo.
- Batismo sim, nome não. A partir de hoje, senhora Vitale é o que te cabe.
- Don Vitale, antes de me dar seu nome, me dê primeiro o casamento.
- E darei, em dias próximos. - me respondeu.
- Achei que o "breve" havia morrido entre nós. - provoquei.
- E morreu. - respondeu firme. - E eu disse próximo, amore mio, não breve.
- Breve e próximo... - bati o dedo no queixo. - Pensei que eram sinônimos. - falei divertida, adorava provocá-lo.
- Sinônimos, sim. Mas não nesse contexto, "breve" é um tempo curto...
- Que você nunca cumpre... - o cortei rindo.
- Por isso ele morreu. - ele respondeu sério. - "Próximo" é a sequência, então minha vida. Em dias sequentes... - Dante me deu um beijo rápido, depois sussurrou com os lábios ainda nos meus. - Rojas fica no batismo, e Vitale para a vida toda.
Suspirei ainda grudada nele. Para muitos isso pode nem parecer um pedido de casamento, mas para mim... foi o mais lindo. Dante sentou ao meu lado.
- Então... até chegarmos ao "próximo". Vamos usar "a sua", que cabe melhor.

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