Valentina
A carícia dele não tinha pressa. O beijo veio depois, manso, profundo, daqueles que afinam o relógio do corpo. Eu senti o mundo deslizar pro lugar certo: o lugar em que desejo e cuidado cabem na mesma frase. Quando o vestido caiu, não fez barulho. Quando a mão dele encontrou minha cintura, meu corpo respondeu com o alívio dos que reconhecem a própria língua.
- Me diz que você tá aqui - pedi, já um pouco sem fôlego.
- Tô aqui, amore mio. - A boca dele pronunciou "agora" em todos os lugares onde o medo morou. E eu acreditei.
Fizemos amor como quem escreve à mão: letra bonita, pausas, respiro, assinatura. O toque, ora suave, ora firme, contou a história inteira do nosso reencontro. Quando eu cheguei, foi com um suspiro cheio e limpo, aquele que atravessa o corpo e benze a cabeça. Ele esperou. Me guardou no olhar. E só então se permitiu, num abraço que dizia "eu fico".
Depois ficamos quietos, mas não era silêncio; era música baixa. Meu rosto colado ao peito dele; o dele, no topo da minha cabeça. Os dedos desenhavam mapas sem pressa nas costas um do outro.
- Se um dia a gente tiver uma filha - murmurei, ainda meio rindo - vai se chamar Aurora.
- E se for um menino? - ele entrou na brincadeira.
- Lorenzo. - respondi, e ele fez uma careta.
- Um dia eu te explico por que esse nome me dá vontade de mudar de país. - ele disse rindo, e eu ri junto. - Mas Aurora eu assino hoje.
- Não é uma pressa - falei - é só um jeito de dizer pro universo que a gente tá pronto... devagar sim, mas prontos.
- Devagar. - ele repetiu, gostando do som.
Dormimos um pouco, um cochilo de depois da missa. Acordei com a sensação de que a casa suspirava e que o sol tinha abaixado um tom.
- A doutora ligou - Dante avisou, fazendo carinho no meu cabelo. - Disse que passaria no finalzinho da tarde, só pra te ver e dizer oi direito. Eu preferi não te acordar.
- Tá certo. - Me endireitei buscando meu vestido no chão e rindo da minha própria bagunça. - Eu tô pronta pra ser examinada e aprovada.
- Você já é minha aprovação preferida. - Ele beijou meu queixo, divertido.
Batidas discretas soaram. Elisa apareceu na porta, o rosto feliz de quem gosta de boas notícias antecipadas.
- Doutora chegou, signori.
- Entra, por favor - Dante assentiu, e Elisa voltou com ela.
A doutora tinha aquele ar de quem carrega jaleco invisível, mesmo quando está de roupa comum. Bolsa de couro, um envelope que não cabia dentro. Me cumprimentou com a mão e um olhar que me pesou sem me acusar.
- Como a senhorita está? - perguntou, sentando-se na poltrona ao lado da cama.
- Melhor que ontem. - Respondi com sinceridade. - Hoje tive café, varanda, música de fonte e declaração do Don.
- E descanso? - ela insistiu, maternal.
- O descanso veio no pacote. - Olhei de soslaio pro Dante, que sorriu com culpa.
A doutora então virou o rosto para ele, como quem pede licença para falar de assuntos que pesam.
- Don, posso? - ergueu o envelope, medindo o momento.
Eu franzi o cenho, curiosa.
- O que é isso? Exames? - perguntei, procurando a cara dele.
Dante tocou a minha mão, o gesto inteiro de quem acalma.
- A doutora vai te explicar, amore. - O tom era doce de verdade, não de adorno. - Ontem, depois que você desmaiou, ela colheu novo sangue. Um exame mais específico.
- Por quê? - minha pergunta veio junto da memória ruim: o "negativo".
A doutora tomou a palavra com aquele tato que vale um salário a mais.
- Valentina - ela começou - o primeiro teste pode ter dado um falso negativo. Ontem colhi uma nova amostra para o Beta hCG quantitativo. Hoje, ao meio-dia, o resultado ficou pronto. Eu preferi vir pessoalmente. - Ela respirou, e eu respirei com ela. - Antes... quero que saiba: eu não quis criar falsas expectativas ontem. O seu corpo estava frágil, e o coração - ela olhou fundo em mim - ainda mais. Hoje você está forte para ouvir.

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