Dante
Do lado de fora, a noite tinha mudado de cor. Liguei para Valentina do carro, ainda parado, como quem precisa do som dela para voltar a falar a minha língua. Chamou. Caiu. Repeti. Caiu. Respirei. Tentei de novo. Nada.
Enviei uma mensagem curta:
"Minha vida, fechei uma parte grande. Tô indo pro hotel subir bagagem. Amanhã cedo... casa. Diz que você tá bem."
Os tiques azuis pareceram chegar mais devagar naquele dia. Nenhuma resposta. O cursor piscou longo. Nenhuma resposta. O volante mordeu minha mão. O homem em mim chamou; o Don atendeu. Fiz uma coisa que raramente faço: liguei para Teresa.
Ela atendeu no terceiro toque, e o "alô" dela foi um abraço:
- Don.
- Teresa... - minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia - ...como está a minha mulher?
Ela não me poupou, porque me ama.
- Esperando o senhor. Sem sair do quarto desde o dia da doutora. - o barulho de panela ao fundo fez uma pausa - Come pouco. Fala menos. Diz que "as coisas vão acertar quando meu Don chegar". E eu acredito nisso, porque eu acredito no senhor.
Eu encostei a cabeça no apoio e fechei os olhos um segundo. Vi Valentina miúda na cama grande. Vi o teste na mesa de cabeceira. Vi meu "breve" carimbando o dia errado.
- Eu tô indo, Teresa. - falei, tentando não parecer o que eu era: um homem que queria abrir um portal no asfalto. - Agora.
- A casa espera. - ela disse - A gente segura até o senhor chegar.
Desliguei. No espelho retrovisor, vi os olhos de quem finalmente entendeu: as somas de fora não cobrem a falta de dentro. Liguei para Mario.
- Prepara o retorno. - ordenei - Entrega o relatório na minha mesa amanhã cedo. A senhora Rizzo, eu mesmo recebo. Ersilio, mande para a delegacia com laço. E fecha o galpão três por hoje. Eu vou pra casa.
- Sim, Don. - Mario nunca pergunta "por quê" quando o assunto se chama Valentina.
A estrada fez o que pôde. Eu fiz o que ainda sei de melhor: mandei o mundo sair da frente. Quatro horas e meia viraram três e um risco. Quando dobrei a alameda, a casa respirou. Teresa devia estar na cozinha; o cheiro de limão me recebeu. Eu não cumprimentei ninguém. Subi.
O corredor do quarto tinha a luz de abajur que ela gosta de deixar acesa quando eu viajo, como se fosse farol. A porta cedeu ao meu toque. O quarto estava no tom de castanho que diz "descanso". Ela dormia de lado. O cabelo, desfeito do laço, se espalhava como tinta escura na fronha. O rosto... pálido. Pálido demais.
- Amore? - chamei, baixo, para não assustar.
Nada.
Aproximei. Sentei na beira da cama, devagar, e passei os dedos de leve pelo rosto dela. Frio. Não de morgue; de febre que andou e foi embora. O frio que mora nas mãos de quem não come, não dorme, não chora alto. Meu estômago virou pedra.
- Valentina... - encostei meus lábios nos dela. Gelados. O beijo não devolveu o som que eu conheço - meu amor, acorda pra mim.
A respiração... não vinha no compasso familiar. Eu encostei a orelha perto de sua boca. O ar chegou tão leve que parecia pedir licença. Meu coração subiu pela garganta. Deitei a cabeça sobre o peito dela, como quem encosta ouvido em concha do mar para ouvir o mar todo. O som veio... fraco. Tão fraco que não se chama som, se chama susto.

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