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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 52

Dante

Era para ser uma noite.

Uma noite para ajustar dois parafusos frouxos, olhar um homem nos olhos, assinar três papéis e voltar a tempo de amanhecer no lado certo da cama, o dela. "Breve", eu disse. A palavra saiu fácil, redonda, e caiu na boca da Valentina como promessa. Acontece que promessa é uma moeda que o mundo adora falsificar. A noite virou dois dias. Dois viraram quatro. E, quando percebi, eu estava contando os minutos como quem conta pecados: com culpa e método.

Os negócios desandaram do jeito que desanda coisa que já nasceu pedindo freio. Um parceiro que achou que podia vender em duas prateleiras sem me consultar, um transporte "desviado" por gente que não sabe a diferença entre fome e ganância, e um capanga contratado pelos Moretti deixando migalhas numa trilha que levava para lugar nenhum. "Só hoje", eu repetia. "Amanhã eu encerro". E a palavra "amanhã", que sempre me serviu, começou a me morder de volta.

Teresa me ligou no segundo dia, aquele tom de sino que só ela tem quando a casa precisa falar comigo:

- Don... a senhorita... - ela escolheu as palavras com a delicadeza de quem maneja cristal - ...suspeitou. E testou. - veio um silêncio breve - Deu negativo.

As quatro sílabas bateram na lataria do meu peito: ne-ga-ti-vo. Não era só sobre um teste. Era sobre um desenho de futuro que eu também já via colado na geladeira. Teresa completou, firme e doce:

- Ela ficou muito triste. Daquelas tristezas que pedem silêncio. Eu e Elisa estamos com ela. Mas, Don... - respirou - ...volte quando puder.

"Quando puder." O mundo ouviu "breve"; a casa ouviu "não tarde".

Desde então, Valentina ficou distante do jeito mais cortês que existe: o jeito dos que amam e, mesmo assim, doem. Minhas ligações caíam no vazio educado da caixa postal. Minhas mensagens, quando respondidas, vinham de duas letras: "ok". Às vezes, "sim". Em dias bons, "tudo bem". Quando eu dizia "eu te amo", eu recebia "eu também". Não porque ela não amasse. Porque a tristeza, às vezes, deixa o "muito" preso no dente.

Na manhã do quinto dia, o hotel tinha cheiro de sabão bom e derrota morna. Eu abri a cortina para ver se a cidade estava de acordo com meu humor; estava cinza. Sentei na borda da cama, olhei para o celular como quem pede milagre a santo de bolso. Abri a conversa dela. O último balão era meu, uma foto do mar com a legenda "te trago o vento". Ela visualizou e não disse nada. Eu respirei fundo e toquei para ligar. O tom chamou uma vez, duas, três. Caiu.

Escrevi:

Amore, eu sei que falhei na palavra. Era para ser uma noite e virou muito. Eu te amo. Tô fechando tudo aqui. Fala comigo?

O tique azul pareceu chegar mais devagar naquele dia. Nenhuma resposta. O cursor piscou longo. Vieram três pontinhos; pararam. Voltaram. Pararam. Eu fiquei olhando como quem observa uma porta entreaberta e não sabe se entra. Quando a mensagem chegou, doeu como verdade dita sem grito:

O seu "breve" nunca é data, Dante.

Li devagar, como quem lê sentença. "Dante"... havia mágoa ali, mas havia amor. O amor dela às vezes me corrige com régua. Antes que eu pudesse tocar de novo para ouvir sua voz, bateram na porta. Duas vezes. Seco.

- Entra, Mario.

Ele entrou com a postura de quem traz chuva e guarda-chuva ao mesmo tempo.

- Don - assenti - o fio que o senhor pediu para puxar... puxou. O homem tá conosco. Falou demais ontem no porto e menos do que devia na hora de explicar. Dei-lhe o convite. Ele aceitou.

"Convite" é a palavra que nós damos quando o caminho só tem uma saída: dizer aquilo que precisamos ouvir. Eu levantei, vesti o casaco. O espelho devolveu o Don; o homem ficou para trás da cortina por enquanto.

- Onde?

- Armazém três, no cinturão industrial. - Mario descreveu sem poesia - Seguro. E... - ele baixou o tom - ...deixei tudo como o senhor gosta quando precisa ser rápido.

Assenti. No elevador, enquanto as luzes acendiam de andar em andar, eu contemplei a diferença simples entre justiça e espetáculo. Eu não faço espetáculo; não preciso. O que eu faço é cortar o mal rente à raiz. De preferência sem barulho. Mas, às vezes, o barulho educa.

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