Valentina
O peito ainda doía pela despedida, mas era hora de deixar a dor da saudade de lado e praticar a compreensão da mulher de Don. Desci para a cozinha assim que escutei o portão fechar. Agora ele realmente se foi.
Entrei e Teresa estava com o avental de listras, Elisa organizava a mesa como se montar mesa fosse liturgia, e a verdade é que era.
- Bom dia, ragazza - Teresa cantou, abrindo um pote de geleia de limão que perfumou tudo, trazendo aquele cheiro de infância boa. - Vamos alimentar os sentimentos?
- Os sentimentos estão famintos - confessei, sentando. - Mas o dono da minha fome fugiu pro mundo.
- Fugiu nada - Elisa retrucou, depositando minha caneca de café no lugar exato do meu humor. - Homem que volta todo dia não foge; obedece.
- Ele disse que volta hoje - eu repeti, para treinar a paciência.
- E você disse o quê? - Teresa me analisou com doçura de lupa.
- Que eu espero. Mas cobro juros de carinho.
- Brava. - Teresa me entregou uma fatia de pão aquecido. - E come. Saudade em jejum vira melodrama.
- E melodrama dá azia - Elisa completou, como se as duas tivessem ensaiado.
Eu ri. Elas riram. A casa agradeceu. Comemos pequenas felicidades: pão, manteiga, queijo, as notícias inúteis do bairro, a fofoca segura do rapaz da floricultura que erra troco com a mesma frequência que acerta o buquê. Teresa me mirou de canto.
- E a pressão?
- Boa - respondi, e levantei o braço para ela encostar o pulso no meu pulso, ritual nosso que vale mais do que aparelho.
Depois do café, eu fui para a biblioteca, meu país. O piano me esperava com as teclas em paz. A luz batia no tapete, a madeira cheirava a coisa antiga.
Sentei. Abri a tampa. Toquei duas notas, depois três, depois fiquei num acorde que não existe, só insisti. Fechei os olhos e lembrei do rosto dele quando diz "minha" com a boca sem roubar nada de mim. Pensei no bebê que eu desenho no futuro com lápis de coragem. E foi aí que o corpo me deu um aviso torto.
Uma tontura pequena, que começou atrás dos olhos e escorreu para a nuca. Parei de tocar. Pisquei. Respirei. Tola de mim, pensei: "falta de café não é, acabei de tomar".
Eu me levantei devagar, indo em direção à cozinha, porque o instinto sabe onde o cuidado mora, nas mãos de Teresa, nas palavras de Elisa. Dei três passos.
O corredor escureceu pelas bordas. Eu abri a boca para chamar. A voz não saiu. O chão subiu um centímetro. O teto desceu dois. Eu tentei segurar no aparador. O aparador sumiu. O mundo ficou preto por dentro e cinza por fora.
E aí eu apaguei.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida Ao Don Da Máfia