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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 47

Dante

Dezessete dias.

Aprendi que um dia longe dela tem a exata medida de um corredor sem luz: você sabe andar, mas falta parede para tocar com a mão. No meu mundo, números fecham, contas batem, acordos pendem da ponta de uma caneta. Ainda assim, descobri que nenhum contrato sustenta sozinho o peso do silêncio da casa quando o riso de Valentina não passa por ele.

Os negócios foram como deviam ser. Fiz "breve" virar verbo: cortei três cabeças pequenas para que a grande não percebesse o barulho. O Consórcio Aminea perdeu o oxigênio onde achava que tinha pulmão, congelamos duas contas em Chipre e uma em Valeta por intermédio de um velho favor na mão certa.

Nicola Calabrese, o carteiro do inferno, não fugiu para longe: dorme num leito anônimo, respirando pelo medo; quando acordar, vai acordar lembrando meu nome. Sobre os Moretti, juntei as peças que faltavam: uma fundação "filantrópica" com nome de santo e dinheiro de pecador; contratos de ervas "medicinais" a preço de joia; a assinatura de uma assessora que não sabe que a tinta do carimbo marca o osso. E, principalmente, uma rota: a mesma van branca que levava caixas para a prefeitura, levava recados para dentro de casas como a minha. Vittorio gosta de jogar xadrez posando de estadista; eu gosto de virar o tabuleiro quando terminam as desculpas.

Mas nada disso é o que me atravessa quando a cidade abre caminho para o meu carro. O que me atravessa é a certeza infantil e arrogante de que, ao dobrar a alameda, o mundo volta a ter cheiro. E tem: o limoeiro da entrada, a cera que Teresa usa no corrimão, o restinho de café da tarde, e um perfume que só existe aqui, mistura de água morna, flor, e um segredo que atende por Valentina.

Mario abriu a porta com a postura de quem já varreu o terreno ao redor. Dois seguranças fazem aquele meio passo para trás que me dá passagem de rei. Eu desci. O primeiro sopro é da casa; o segundo, dela.

Não deu tempo nem de dizer "cheguei".

Ela veio correndo, leve, rápida, certeira, e o impulso com que se atirou em mim é a medida exata do que eu chamo de destino bem-educado. As pernas rodearam minha cintura; os braços me fecharam um cerco que é bênção. Beijos caíam onde encontravam: rosto, queixo, canto da boca, narina, minha bochecha que não disfarçava um sorriso malcriado. A voz, entre um beijo e outro, desabava sem ensaio:

- Eu senti a sua falta. Senti tanto, mais tanto, Dante. Tanto que doeu nos lugares que a medicina não mede.

Eu ri, raro, porque o riso dela, tão perto, dissolvia meu chão e deixava só o necessário.

- Se você não me falasse... eu nem teria notado. - provoquei, absolutamente notando.

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