Valentina
O telefone vibrou na mesa lateral. Olhei a tela. Dante. Chamada de vídeo.
Meu coração se comportou como adolescente que descobre a palavra "agora". Atendi antes de respirar.
Ele apareceu com o mundo de fundo: um quarto de hotel que tem cara de "trabalho", camisa arregaçada, a barba de dez dias que eu aprendi a apreciar como quem aprecia perigo domesticado. Os olhos cinzas, que mesmo pela tela, têm uma verdade que acende minha pele.
- Minha mulher. - A voz dele pousou em mim. - Diga que está bem.
- Tô bem. - sussurrei, e o sussurro saiu com perfume de confissão. - Tô com saudade. - E a palavra "saudade" pareceu uma chave. Ele encostou no encosto da cadeira, me observando inteira.
- Eu também. - Dante não enfeitou a confissão. - Fala comigo. O que você quer de mim agora?
Eu poderia responder "volta". Poderia dizer "destrói Moretti". Poderia pedir "promete". Em vez disso, uma lembrança me mordeu: um filme proibido que vi escondida do meu tio, onde a mulher, sozinha, chamava o homem para dentro da própria pele pela tela. Não era vulgar, era coragem. E eu, que aprendi com Dante que coragem também é roupa de festa, decidi vesti-la.
- Quero você... me guiando. - falei, firme, sentindo a audácia nascer nas mãos. - Mesmo longe.
Ele não piscou. Apenas mudou um grau a expressão: o Don entra, o homem fica.
- Levanta. - a ordem veio baixa. - Coloca o celular onde eu a veja inteira.
Obedeci. Apoiei o telefone no piano, virei a câmera, afastei um passo. Estava com um vestido preto simples, alças finas, pele de fim de tarde. A casa observava tudo pela moldura do espelho antigo. Mas eu sabia que éramos só nós. Ele me olhava com um tipo de silêncio que não julga; decide.
- Toca uma nota para mim. - ele pediu. - Só para eu lembrar do teu som.
Eu toquei. Uma, duas, três, que derrubaram a guarda dele num canto da tela. O canto da boca quase entregue.
- Agora, me obedece. - a voz veio macia e de ferro. - Encosta a mão no próprio ombro, desce devagar pela clavícula. Para onde a pele pedir. Quero ver você se descobrindo.
Respirei. A mão direita subindo, pousando no ombro, desci pela clavícula. A pele arrepiou na altura em que sempre arrepia. Dancei com meus próprios nervos. Olhei para a câmera, para ele e não desviei. A cada centímetro, a coragem crescia um pouco. O vestido cedeu onde minha vontade passava.
- Mais devagar. - ele corrigiu, e essa palavra foi como um botão. - Quero o tempo certo.
O dedo desenhava a borda do decote. O ar mudou de densidade. Não sei se tremia de frio ou de pergunta. Sei que ele me via, e o que me tranquiliza não é ser vista; é ser vista por ele.
- Valentina. - ele me chamou como quem abre a porta. - Fala. O que você está sentindo?
Pensei na menina que observava do canto do bar. Depois na mulher que hoje ocupa o próprio palco.
- Eu estou... ficando quente. - admiti, rindo de mim, e a risada derramou mais coragem. - E com vontade de mais.
- Então pede. - ele encostou os cotovelos no joelho, o rosto mais perto da tela. - Eu te dou.
- Me... guia. - pedi. - O resto, eu aprendo aqui.
- Tira o cabelo do pescoço. - ele ordenou, e eu obedeci adorando. O cabelo foi para um lado, o pescoço ficou à mostra. - Agora, toca onde eu beijo primeiro quando estou aí.
A ponta dos meus dedos alcançaram o ponto entre o pescoço e a orelha. Eu fechei os olhos, porque o corpo sabe repetir o mapa. Um suspiro me traiu.
- Olhos abertos para mim. - ele pediu, e eu abri. - Quero ver o que é meu enquanto você se encontra.
A frase tingiu meu rosto de coragem e rubor. Desci a mão pela curva dos seios por fora do tecido, o atrito do vestido acendeu outro tipo de música. O coração bateu onde Dante construiu casa. Ele observava com um respeito violento, a combinação exata que me desarma.
- Senta no banco do piano. - A voz dele ficou mais baixa. - Deixa os joelhos afastarem só o suficiente para caber o ar.
Sentei. A distância entre as coxas virou um compasso. Apoiei o calcanhar no suporte, senti o músculo da perna responder. O vestido subiu um pouco. O espelho me devolveu uma mulher que eu não conhecia inteira.
- Faz com a mão aquilo que eu faria se eu estivesse aí... te pedindo calma e te tirando ela. - ele comandou. - Sem pressa. E me diz o que cada toque faz com você.
Eu ri, nervosa e achando graça de estar nervosa. A mão esquerda me abraçou a cintura, a direita explorava devagar, por cima do tecido, sem pressa de desembainhar segredo. Eu narrei como pude, com as palavras que cabiam.
- Sinto... calor subindo. - confessei. - E... um tipo de coragem que sobe junto.
- Boa garota. - ele roçou a voz na tela. - Agora, fecha os olhos por dois segundos e imagina que eu estou atrás de você, respirando no seu pescoço. Abre de novo e faz exatamente o que você acha que eu faria com você.
Fechei. Vi. Abri. Obedeci.
Minha própria mão virou a mão dele, firme, paciente, certeira. O mundo ao redor perdeu ângulos. A sala encolheu para caber nós dois e a tela pareceu pouca para a corrente que a atravessava.
- Fala meu nome. - ele exigiu, e eu obedeci quase sorrindo.
- Dante.
- Mais baixo. Como você fala quando o meu controle te acalma e te incendeia.
- Dante... - e meu corpo entendeu o idioma.
Senti a respiração mudar de tempo. O vestido se moveu como cortina em vento quente. Eu mordi o lábio, deixei o som escapar, tímido no começo, depois menos. O piano silencioso assistindo sem julgamento. Eu me surpreendi com a sinceridade do meu próprio corpo respondendo a mim, e a ele, que me assistia com devoção de dono honesto.
- Você é minha. - ele afirmou, sem urgência. - Se dá para você agora... e me dá junto.
- Sou. - e a palavra "sou" me atravessou do alto a baixo, sem pudor.
- Respira comigo. - Dante desenhava o compasso: inspira três, segura dois, solta quatro. Eu acompanhei, e o corpo inteiro agradeceu, abrindo espaços onde antes havia guarda.
Minhas coxas obedeciam uma música que não saia do piano. Minha mão aprendeu o gesto que é meu e dele. O arrepio nasceu, cresceu, espalhou. Quando ameaçava recuar, ele não deixava.

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