Valentina
Existe a versão oficial:
"calá-la para apagar o escândalo da venda, impedir que a dívida do filho viesse à tona".
Eu a ouvi da boca de homens que conhecem o preço do silêncio. Pensamento de gente que troca moral por moeda. Certeza de quem acha que eu sou um problema contábil.
Mas minha intuição, a tal que o meu tio chamava de juiz da alma que não compra explicação barata, essa me mostrava outra coisa.
Meu tio dizia: "Menina, a intuição serve quando a regra do jogo fica tímida; ela levanta a placa e manda repetir a jogada." E tem uma jogada repetida nessa história que não me desce: não era só para me calar. Era para me riscar, como se eu fosse um erro num quadro negro. Quem quer silêncio manda recado. Quem quer apagamento manda veneno.
Esses pensamentos me atingem enquanto estou aqui, sentada diante do piano. As teclas frias me olham como um velho amigo esquecido. Toquei só três notas, depois mais duas, depois nenhuma. Não entrei na melodia. Fiquei só na borda, um pé dentro e outro fora, como quem visita uma casa da infância onde os móveis mudaram de lugar.
A lembrança veio limpa: fim de tarde no bar do meu tio, o cheiro de madeira encerada e cerveja recém-aberta, o sol escorrendo oblíquo pelas garrafas e transformando tudo em vitral barato, mas lindo do mesmo jeito.
Meu tio, sempre de camisa branca, mangas dobradas, dedos largos no teclado como quem segura o mundo com dez arranjos. Ele encantava os outros. Eu, do canto, aprendia a me encantar com "o jeito que se toca sem ferir o instrumento". Aquilo era regra e poesia.
Toquei as mesmas três notas. Deixei a quarta morrer na garganta do piano. Contei mentalmente os dias de ausência de Dante, dez... e neste instante descobri que a saudade inventa horas extras. A dor é pior do que a febre que quase me levou, porque a febre tem termômetro e horário.
Já a dor da saudade, essa não se controla, nem mesmo se mede. Porque a saudade é um bicho sem coleira, atravessa a casa, apaga as luzes e pede mais.
Fechei os olhos. A mão direita caminhando sozinha, tropeçando num acorde que não existe, resiste e insiste. Quando meus os olhos se fecham, ele aparece: o cheiro de pele morna e banho rápido, a respiração que se encosta na minha nuca, os dedos firmes que me sabem como mapa, a maneira quase religiosa como ele fala "minha" sem me diminuir, mas me aumentando. Dante. O homem e o Don, os dois perfis na mesma sombra.
- Senhorita? - a voz de Teresa me puxou de volta, macia e pontual. - O almoço esfria se a música aquecer mais que a panela.
Abri os olhos. Teresa estava no vão da porta, mãos às costas, aquele sorriso que não invade.
- Já vou, Teresa. - respondi, atravessando as três notas para fechá-las num acorde bonitinho, só para agradar à mania de finalização do meu tio.
- Lembrete da sua enfermeira mais velha - ela ergueu o queixo como quem lê receita: - às dezessete, consulta com a doutora. Quando medi sua pressão pela manhã, estava uma beleza. Falta só comer como gente. Hoje temos sopa de tomate assado com manjericão, o pão de fermentação longa que o Don gosta e salada de rúcula com parmesão. E não me venha com "depois eu como", porque eu não acredito quando seus olhos estão desse jeito.
- Que jeito? - fingi inocência.
- De quem come saudade no almoço. - Teresa nunca recua de suas próprias verdades. - Isso dá azia.
Eu ri. Ela riu. A casa suspirou agradecida por conversas que lavam os cantos.
- Tudo bem - cedi - eu tento metade da sopa e uma fatia do pão.
- Brava, ragazza. - ela ajeita um nada na moldura e me mira outra vez. - O Don ligou às oito e quarenta. Disse que possível retorno em... - ela estala a língua, procura a palavra com paciência - "breve". Que só quem ama tolera palavras tão imprecisas.
- "Breve" não é data. - reclamei de leve, aprendendo a fazer da saudade uma língua que não envenene.
- "Breve" é promessa humilde. - Teresa dá de ombros. - E promessa humilde costuma cumprir. Venha antes que Elisa resolva temperar sua salada com opinião.
Na cozinha, Elisa já me esperava com opinião temperada.

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