Dante
Assim que passei pela porta do escritório, o cheiro me atingiu. Sangue seco, pólvora e medo. O tipo de perfume que Mario traz quando a verdade sangra antes de ser dita. Olhei para ele com a camisa manchada até o cotovelo, os punhos ainda vermelhos. Jogou um pen drive preto sobre a mesa de mogno como quem j**a um cadáver.
- Bianca cantou. - disse, sem preâmbulo. - Gravação limpa. Sem quebra. Só pressão.
Não peguei o pen drive de imediato. Primeiro, olhei para as mãos dele. As unhas, limpas. Mario sempre limpa o que faz. Mas havia um corte fino no dorso da esquerda, uma linha reta, nova, que não era dele.
Alguém lutou. Alguém perdeu.
- Nicola Calabrese? - perguntei.
- Nome, conta, endereço da entrega. Tudo. - Ele tirou um envelope pardo do bolso interno do casaco. - Depósito de cinco mil euros, offshore em Chipre. Assinatura digital do Consórcio Aminea. Moretti não é burro, mas é preguiçoso. Deixou rastro.
O peso das palavras caiu sobre mim devagar. Nicola Calabrese. O mesmo nome que aparecera nos registros das ervas enviadas pela prefeitura, nas notas das infusões. O veneno estava no chá. E o chá estava nas mãos dela.
A batida leve na porta me tirou do transe. Antes que eu dissesse qualquer coisa, a maçaneta girou.
Valentina entrou.
Ela ainda vestia minha camisa, a barra caía até o meio da coxa. Os pés descalços no mármore frio. Ela olhou para o pen drive. Para o sangue seco. Para o Mario. E nada dela indicava que ia recuar.
- Não consegui ficar lá. - disse, sem pedir licença. - Depois de ver Mario sair daquele jeito, eu precisava estar aqui.
O silêncio pesou. Mario olhou para mim, esperando ordem. Eu apenas levantei a mão.
- Fica. - disse a ela, sem tirar os olhos. - Mas se ouvir algo que te assuste...
- Eu já ouvi. E continuo aqui. - me cortou, firme.
Por dentro, algo em mim quis sorrir da coragem. Por fora, permaneci o Don.
Mario sentou-se à frente da mesa, plugou o pen drive. O som de inicialização preencheu o espaço. A tela piscou, e a voz da mulher trêmula, mas clara, atravessou o ar.
"Nicola me deu o pacote na terça. Disse que era só trocar o chá de camomila da signorina Rojas. Que era um problema temporário. Eu não sabia que era veneno. Juro. Só... só precisava do dinheiro."
Olhei de relance para Valentina, ela fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, havia algo novo neles: não medo, não raiva.
Era desejo de resolução.
Eu me levantei. O escritório parecia pequeno demais para o que eu sentia. A raiva não era grito, era faca guardada, pronta.
- Bianca? - perguntei.
- Exílio. - respondeu Mario. - Convento em Úmbria. Sem celular, sem nome. - Deu de ombros. - Ela aceitou. Melhor que o alternativo.
Fiquei alguns segundos olhando para o fogo que ardia na lareira. As chamas refletiam no vidro do pen drive, ironia: o mesmo calor que purifica, destrói. Bianca era só uma peça. Nicola, o canal. Moretti, o mandante.
Mas o veneno... esse carregava assinatura pessoal.
- Localize Nicola Calabrese. - falei, voltando o olhar para Mario. - Quero ele vivo. E quero o nome de quem assinou o contrato com a Aminea.
- Já estou rastreando. - respondeu. - Mas há algo que precisa ver.
Ele abriu o envelope. Dentro, o comprovante do depósito, e uma cópia do cartão da remessa: "Com estima, do gabinete do senador Moretti."
O sangue ferveu. Não o da vingança, o do amor. Porque agora eu sabia: o alvo nunca fui eu.
Era ela.
Valentina estava sentada na cadeira de couro, na minha frente. A camisa grande caía num ombro, revelando pele e coragem. Ela olhava tudo. Ouvia tudo. E, mesmo assim, não desviou o olhar.
- Então foi ela. - murmurou. - A Bianca.
Assenti breve, um pouco frio.
- Ela foi usada. Mas aceitou o papel. Não há inocência.
- E o homem que mandou? - Valentina perguntou.
- Esse ainda respira. - respondi, seco.
- Por quanto tempo? - ela insistiu.
Sorri de lado, sem humor.
- O tempo que eu levar para chegar até ele.
Mario se levantou, entendendo que o que vinha agora não era mais trabalho.
- Don... - começou, mas parei com um gesto.
- Encerra o dia. Quero os relatórios na minha mesa até o amanhecer. Ninguém entra aqui.
- Sim, Don. - respondeu, e saiu.
A porta se fechou. E o silêncio que ficou não era vazio, era denso, quase palpável. Valentina continuava na minha cadeira, as pernas cruzadas, o olhar fixo em mim. Por um instante, fiquei apenas olhando.
Ela respirava devagar. O contraste entre a pele clara e o preto da camisa me lembrou do porquê de todo esse inferno: amor é uma maldição bonita.
Caminhei até a porta, tranquei. O clique ecoou pelo ambiente. Dei meia-volta e parei diante dela.
- Você devia ter me esperado lá, ido para o quarto, ficado descansando. - disse, mesmo sabendo que era inútil.
- E você devia ter me contado antes. - retrucou. - Eu sou a parte envolvida, Dante. Eu era quem tomava o chá.

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