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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 43

Dante

Ela se levantou. Demos as mãos sem pensar, o gesto virou reflexo. Descemos. O corredor hoje tinha cheiro de café e pão. A cozinha de Teresa é o meu paraíso particular: mesa pequena posta no canto, duas xícaras brancas, um prato com frutas cortadas e pão aquecido, manteiga na louça boa. Elisa deixou um vasinho de limoeiro bebê no centro, debochada. Rimos da lembrança de ontem sem falar dela.

- Bom dia, meus amores. - Teresa apareceu, o sorriso de quem sabe e não diz. - Dormiram?

- Trabalhamos muito. - Valentina respondeu, cínica; Teresa quase se engasga de rir.

- A senhora é indelicada, Teresa. - fingi gravidade. - É cedo para subentendidos.

- E tarde para mentiras. - ela piscou. - Comam antes que o mundo descubra a casa.

O "antes" durou mais do que deveria porque felicidade alonga o relógio. Tomei café como gosto, ela roubando minha torrada, eu fingindo amuar e devolvendo com um pedaço de mamão. Conversamos bobagens: da cor do céu, do barulho da fonte, de como o limão tem aroma de infância para ela. Entre uma mordida e outra, Valentina colocava a mão na minha coxa por baixo da mesa, distraída, e eu deixava. Sabia que não era provocação; era presença. Eu fico quieto por fora e agradecido por dentro.

- Mario já passou? - perguntei a Teresa, sem urgência.

- Saiu cedo. - ela respondeu, lavando uma xícara. - Disse que resolvia uma coisa pequena e voltava.

Coisa pequena no nosso vocabulário é tudo que não explode na mão. Ainda assim, um ponto de atenção acendeu e apagou num canto do meu peito. Mandei calar. O café estava perfeito, a mulher do meu lado, viva, rindo, com as pernas cruzadas na minha direção. Hoje, eu escolhi o agora com teimosia.

Depois do café, ficamos mais uns minutos na varanda que dá para o jardim de inverno, nosso cenário recente de milagres. Valentina encostou as costas na minha frente, e eu a abracei por trás, o queixo no ombro. Ela segurava meus antebraços como quem segura corda de barco. Ficamos nisso, olhando nada ao mesmo tempo, olhando tudo.

- Se eu disser que quero isso todo dia, você briga com o mundo? - ela perguntou, sem drama.

- Todo dia. - respondi, simples. - Eu brigo com o mundo desde antes de conhecer você. A diferença é que agora eu sei por quê.

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