Dante
Acordei antes de o sol acertar o ângulo no vidro. Primeiro, veio o cheiro dela no meu travesseiro. Depois, o peso bom da perna jogada por cima da minha cintura, a mão aberta, se sentindo dona, na minha barriga. O mundo inteiro podia tocar a campainha; eu não atenderia. A casa respirava devagar, cúmplice. E eu fiquei olhando Valentina dormir como quem guardava joia com os olhos.
Ela mexeu o rosto, os cílios tremeram, e eu sabia que estava voltando. Encostei a boca no alto da testa dela, o ponto onde a noite assinou "pra sempre" e deixei um beijo que é mais bênção que promessa.
- Bom dia, minha mulher. - sussurrei, rouco de felicidade.
Ela abriu um olho, depois o outro. O sorriso veio antes da fala, e eu entendi por que homem atravessava oceano por causa de um sorriso.
- Bom dia, meu homem. - ela devolveu, voz de lençol morno. - Você sempre acorda assim... perigoso? - ela passou a perna em mim.
- Só quando o perigo tem seu nome. - respondi, e o riso dela encostou em mim como sol.
O "bom dia" que a gente deu com a boca começou manso e cresceu com pressa boa. Eu rocei o nariz no dela, ela puxou a minha nuca com aqueles dedos que aprenderam meu mapa numa noite. O beijo veio inteiro, sem cerimônias: boca que reconhece casa, língua que fala a mesma língua. O corpo respondendo como se a cama fosse uma orquestra e a gente tivesse decorado o compasso.
- Mais perto. - ela pediu, num fio de voz que é um comando.
- Sempre. - obedeci.
Deslizei a mão pela curva do quadril até a cintura, firme, e virei com ela debaixo de mim com cuidado de quem coloca cristal na prateleira favorita. O lençol recuou como cortina que entende o espetáculo. Ela prendeu o lábio no dente, rindo do meu jeito de olhar.
- Para de olhar como se eu fosse milagre. - implicou, mas cúmplice.
- Você é. - falei sem rir. - E eu sou um devoto mal-educado.
Ela mordeu o canto da minha boca. O "bom dia" ficou mais ousado porque o amor, quando dorme bem, acorda corajoso. Dei espaço para as mãos dela me explorarem; Valentina tem uma curiosidade bonita. Os dedos subiam, mapeavam meus ombros, desciam em linha reta pelo peito, pausavam onde sentiam que a respiração falhava e ela sorria do efeito como quem aprende truque de feira. Eu deixei, estava feliz em ser um truque que só ela sabia fazer.
- Fala comigo. - pediu, a voz baixa. - Só eu e você.
- Só eu e você. - confirmei, a boca colada à dela. - Aqui não entra ninguém. - E marquei com beijos curtos as palavras que escolhi: "respeito", "cuidado", "minha", "nosso".
A perna dela me envolveu pela cintura; era um convite e uma certeza. O mundo foi reduzido a dois corpos que já não se procuram no escuro, se encontram. Eu ajustei o ritmo ao dela, não tinha pressa, mas hoje deixei a ousadia escolher algumas curvas. Minha mão prendeu o pulso de leve acima da cabeça, só para ela sentir que eu estou comandando e, ainda assim, pedindo. Meu olhar perguntou; ela respondeu com um "sim" aberto, inteiro. O corpo conversava, a cama entendia, o ar mudou de temperatura.
- Se eu passar do ponto, você me chama de volta. - lembrei, porque lembrar também é carinho.
- Don... - ela riu, feliz. - Quem tá te chamando sou eu. Então só vem.
Eu fui. Aprofundei o beijo, o quadril conversava com outro dialeto, e era doce ver Valentina se soltar, confiante, dona da própria alegria. Quando o suspiro dela mudou de altura, eu diminuí, quando ela pediu com o quadril, eu aumentei. E assim, como quem dança a dois sem ensaio, a gente acertou. O "bom dia" virou "melhor dia" no exato instante em que ela arqueou o corpo e segurou minha nuca mais forte. Eu falei o nome dela como reza breve e deixei que chegasse.
Ela chegou. Eu esperei. Sorri da beleza sem espetáculo, o tremor pequeno, a risada surpresa, a mão que procurou meu rosto. Só depois eu atravessei também, simples e inteiro, como quem assina um livro que já estava escrito. Fiquei dentro do silêncio bom de depois, a testa na dela, a respiração fazendo par.
- Bom dia. - ela repetiu, rindo contra minha boca.
- Bom dia. - respondi, e a beijei mais uma vez, rápido, do jeito que sela sorte.
Ficamos deitados alguns segundos, a mão dela desenhando círculos na minha nuca. A vontade é de não sair nunca, mas amar também é cuidar do depois. Eu me ergui com calma, passei o braço por baixo das costas dela e outro por baixo dos joelhos, e a peguei no colo como peguei a noite inteira: minha.
- Dante... - ela fez charme. - Eu posso andar.

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