Dante
- Hoje não tem contrato, nem obrigação, Don Vitale. Tem escolha. A minha. - A mão dela veio até o meu rosto. - E eu escolho você, o homem que transformou obrigação em casa. Vem, meu amor.
- Eu vou. Com respeito, cuidado... e tudo o que eu sou. Só para você.
Ajustei o corpo ao dela como quem encosta barco em cais pela primeira vez. As mãos guiaram, não exigiram. Os meus olhos procuraram os dela, sempre. Eu disse que não correria e vou cumprir. Tomei o tempo que o respeito exige. Quando avancei um pouco, um sopro de cada vez, perguntei sem voz, e o corpo dela respondeu com aquele "vem" que não se pronuncia, se sente. A respiração mudou de frequência; eu acompanhei. Tudo que é duro no mundo se desarmava aqui.
- Dói? - perguntei, quase sem ar. Eu pararia o planeta em qualquer direção que ela indicasse.
- Um pouco... - ela sussurrou honesta. E sorri com surpresa, como quem descobre que a dor pode vir vestida de música. - É boa. É... nova.
Beijei o canto do olho. Beijei o queixo. Beijei o coração dela por dentro, do jeito que pude. Avancei só o suficiente. Parei. Deixei que o corpo dela me dissesse quando.
- Me olha, amor. - pedi.
Ela me olhou. E quando me olhou, tudo ganhou nome: o que era medo virou respeito, o que era pressa virou rito, o que era silêncio virou hino. Eu a acolhi por inteiro com um cuidado que não teve nenhuma pressa, e ela me recebeu com uma entrega que não teve nenhuma dúvida. O mundo cabia no intervalo entre o suspiro que ela soltava e o "meu Deus" que ela mordia.
- Aqui. - ela disse, quase rindo entre o espanto e a alegria.
- Aqui. - confirmei, e fiquei.
O ritmo nasceu, não de pressa, mas de promessa. Lento, atento, cadenciado como quem aprendeu passos grandes com pés descalços. A cada movimento, um sim. A cada pausa, duas promessas. Eu descrevi com as mãos, a lombar, o quadril, a curva pequena acima do joelho, o alfabeto inteiro do que pretendo dizer pelo resto da vida. Ela respondeu com o corpo inteiro: abriu mais espaço, buscou mais perto, me deu sinais que não aprendi em nenhum lugar e, ainda assim, entendi fluentemente.
- Fala comigo. - ela pediu, num fio que é corda e laço.
- Eu tô aqui. - falei. - Eu volto sempre. - disse outra vez. - Você é minha casa. Minha mulher. Meu amor.
As palavras simples abrem portas grandes. Senti a tensão mudar de cor nela; a respiração encontrou o mesmo tempo que a minha. Eu chamei o nome dela de novo, uma, duas, dez vezes, cada chamada, um beijo, e a cada vez que falei "Valentina" é como se eu assinasse um contrato com o mundo.
Ela tocou meu rosto, o polegar na minha boca, como se me pedisse coragem para ir junto. Eu fui. Sem força bruta, com toda a força mansa que aprendi nela. E quando senti o primeiro tremor, aquele que começa leve na barriga e vira onda que sobe para o peito, eu entendi: é o instante em que ela se encontra com ela mesma bem diante de mim.
- Eu... Dante... - ela tentou falar, mas a voz tem mais mar do que dicionário.
- Vem querida. - pedi, quase num sopro. - Eu tô aqui.
O corpo dela se desfez sobre o meu como chuva que cai em terra que esperou por ela. É maravilhoso ver e sentir a mulher que eu amo atravessar a própria ponte sem medo. Eu guardei a imagem com o cuidado que se guarda santo.
A segurei pelos ombros, beijei sua testa, deixei que a onda terminasse inteira, sem roubar um centímetro do que é dela. E quando ela relaxou, inteira, com os olhos brilhando e um sorriso que parecia um agradecimento, eu me permiti atravessar também. Bastaram dois passos a mais, um pedido mudo ao céu, e pronto: eu a segui, sem ruído, com o nome dela na boca como reza. O prazer me tomou com uma doçura que eu não sabia que os homens da minha família tinham direito.
Ficamos um tempo sem nos mexer. Só o coração trocando cartas com o coração. Eu a envolvi e virei para o teto. Ela se ajeitou no meu peito. O mundo ainda não sabia, mas acabou de nascer outra geografia.

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