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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 40

Dante

Quando a vi encostada à porta, com a luz das velas fazendo renda na pele, Deus, senti uma coisa que não é só desejo: é destino pegando atalho. No jantar, cada riso dela afinava um violino dentro do meu peito; cada garfada em silêncio me ensinou uma gramática de paz que eu nunca tive. E o fogo... o fogo começou quando a imaginei, não com pressa, não como fome, mas como casa. Dentro dela, não como invasão, mas como morada. A ideia sozinha queimou meu mapa. O desejo me tirou o norte, e por isso errei duas curvas, quase entrei na lavanderia. Mas o riso dela me trouxe de volta, como sempre faz.

E depois, a dor. Rápida, limpa, com a precisão de faca de cozinha: a mágoa nos olhos dela quando parei diante do quarto errado. Eu vi. Doeu em mim em lugar que não sangra por fora. Eu quis falar. Abrir a gaveta certa da minha história, mostrar o que há atrás da porta que não abro. Não é que ela não mereça estar lá dentro. Pelo contrário: se há alguém que merece qualquer porta aberta, é Valentina. O problema é outro: ainda acho que o que está lá dentro não merece sair.

Não porque eu ame ainda. Eu amei. Muito. E enterrei como se enterra quem não se despediu. Lúcia foi o eco de um amor que enterrei com as próprias mãos, um quarto onde guardei seu sorriso que não voltou. Mas Valentina, é o presente que respira.

Hoje quem mora em cada pedaço do que eu sou é a mulher à minha frente, a que eu acabei de magoar. Valentina é presente contínuo e promessa que já cumpro. Lúcia é o retrato que não retiro da moldura para não manchar; Valentina é o filme inteiro passando em tela viva. Eu vou consertar. Vou contar. Na hora certa, do jeito certo, quando a palavra não for muro entre nós, mas ponte.

O alívio quando ela me aceitou... quando disse que eu não precisava de minutos para ser digno... aquilo varreu de mim vinte anos de briga com o espelho. E então, foi simples:

- Eu cheguei. - eu disse, e a frase encontrou lugar para dormir.

Ela ergueu o rosto. O canto molhado do olho brilhou no mesmo tom das velas. Encostei a boca na dela devagar, bebi um sim que veio sem som, e deixei que o beijo falasse antes de mim tudo que sempre chega mais bonito pela pele.

Não havia pressa. Eu a levantei de leve, ela voltou para o meu colo por instinto, dei dois passos até o meio do quarto. Meu quarto ou o dela? Agora, tanto faz: onde ela está vira meu. Onde eu estou, vira dela. Pousei-a no tapete, só para rir do meu tropeço anterior, e então a levei para a cama. Dessa vez, não importou os corredores. Importou o caminho curto entre o coração e a boca dela.

Sentei na beirada, ela à minha frente, as mãos no meu ombro como quem mede a altura do mundo. Eu tirei os sapatos, ela me ajudou num gesto bobo que me desarmou inteiro. Ali, a guerra terminava: agora serão dois pares de mãos contra o resto de tudo.

- Amor... - disse baixinho, mordendo o "r" como em oração. - Se algo te incomodar, você me para. Hoje, amanhã, sempre.

- Eu sei. - ela respondeu. A voz dela, quando está certa de mim, ganha um calor que me cura febres que nem sabia que tinha. - Eu quero você. Assim.

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