Valentina
Não precisávamos de juramento em voz alta. Bastou o entendimento. Então eu lhe estendi a mão como quem diz "senta" ao homem que manda homens sentarem, e o trouxe até a mesa que Teresa e Elisa transformaram em segredo luminoso.
- Senta, Don. - provoquei. - Hoje eu te roubei do mundo.
- Me roube toda noite. - ele sentou, e a frase pousou onde doem as vontades.
Servi a burrata como se servisse lua fresca. O tomate confitado tinha gosto de pressa que escolhe não ter. Dante provou e sorriu, não com a boca, com os olhos. Tenho aprendido a medir os sorrisos dele pelos lugares onde nascem.
- Você planejou isso com um exército. - comentou, divertido, quando viu a trilha de velas miúdas fazendo rendimento de luz até o canto do chafariz.
- Com duas generais. - anunciei. - Teresa no comando do milagre, Elisa na direção de arte. Eu só entrei com a cara e a coragem. E com o vestido, claro. - pisquei para ele.
- O vestido... - ele olhou para mim como quem agradece a alfaiates desconhecidos e deuses íntimos. - Ele vai me perseguir nos sonhos.
- Vai te guiar. - corrigi. - Sonho bom tem bússola.
Comemos devagar. O risoto de limão siciliano chegou na temperatura de "agora", cremoso sem pedir perdão. Quando eu servi, ele encostou a mão na minha que segurava a concha e segurou um segundo a mais, gesto pequeno que disse muito. Falamos de quase nada e, por isso, de tudo: ele contou que o mar na linha da doca, pela manhã, tem cor de aço polido quando venta de leste; eu contei que, criança, eu achava que o cheiro de limão atraía anjos. Ele riu, disse que isso explicava muita coisa sobre mim.
- Eu gosto quando você me dá pedaços do seu antes. - ele admitiu, já no linguado sobre a manteiga de sálvia, que Teresa acertou como quem toca piano.
- Eu gosto quando você me dá pedaços do seu agora. - devolvi. - O "depois" a gente cozinha junto.
Ele ergueu a taça de Vermentino, e o vidro pegou fogo de vela.
- Ao nosso depois. - brindou.
- Ao nosso agora que vai empurrando ele. - acrescentei, encostando minha taça na dele sem barulho. O tilintar ficou interno.
O jantar foi isso: duas pessoas que já se escolheram, aprendendo as bordas novas do outro. Ele recolheu meus pratos como quem recolhe cartas valiosas; eu ajeitei seu guardanapo no colo como quem cuida de um rei que esquece a coroa no armário. Em dado momento, ele se levantou, foi até o tocador de discos que Elisa improvisou com uma caixinha sem fios e trocou a faixa. Um piano entrou como se pedisse passagem. Dante voltou, não para a cadeira, mas para o lado de fora da mesa, encostando o quadril no tampo, os braços cruzados, me olhando como se eu fosse a coisa mais interessante feita naquela casa desde o alicerce.
- Isso é o que você faz comigo. - ele disse, sem teatralidade. - Me deixa... quieto. E eu não sei ser quieto. - Um sorriso breve cortou o rosto. - Exceto aqui.
- Aqui é permitido. - garanti. - A casa não desconfia da gente quando a gente fica quieto; ela agradece. - ele sorriu... um daqueles sorrisos.
A sobremesa foi torta de limão, claro, com raspas que pareciam constelação privada. Quando dei a primeira garfada, fechei os olhos, e ele aproveitou para roubar a segunda do meu prato. Eu abri um olho, teatral, e ele fingiu inocência com a graça limitada que um Don consegue fingir.
- Ladrão. - acusei.

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