Valentina
Ele não entrou no jardim: foi o jardim que entrou nele. A luz das velas fez o cinza dos olhos ficar quente, o limoeiro desenhou sombras de rendas no chão, e a casa inteira pareceu entender que aquilo era um rito. Dante veio até mim sem pressa, aquele tipo de aproximação que desloca o ar, depois me envolveu pela cintura com as duas mãos, polegares firmes no lugar onde eu sempre esqueço a prudência.
- Já disse como você está linda hoje? - sussurrou, tão perto que a frase pousou na minha pele antes de chegar ao ouvido.
- Só duas vezes. - respondi, insolente mas mansa. - Uma quando me olhou do jeito errado, e outra quando me olhou do jeito certo.
Ele riu com os olhos, e eu senti. Os dedos dele apertaram um nada a mais, e foi como se o meu corpo registrasse gratidão por mim mesma em aparecer vestida de vermelho, de liga secreta, e coragem na boca.
- Qual foi o jeito certo? - perguntou, fingindo ignorância como quem abre espaço para eu crescer dentro da cena.
- O que começa aqui... - indiquei a boca - ...e termina aqui. - bati de leve o dedo na própria clavícula.
- Então deixa eu começar direito. - ele disse, e começou.
O beijo não pediu licença para as velas. Veio inteiro. Lento, consciente, longo. A mão esquerda dele subiu um pouco nas minhas costas e achou o ponto onde meu corpo vira casa. A direita continuou na cintura, dono sem cerca. Eu respondi abrindo a boca no tempo exato da sua, aquela velha coreografia que já parece nossa há anos e foi ensaiada em semanas. O mundo afastou a cadeira para nos assistir: o cristal na mesa respirou, a chama da vela inclinou, o limoeiro bendisse sem dizer "amém".
Quando o beijo acabou, não foi por falta de ar; foi por excesso de tudo. Dante encostou a testa na minha, selou ali uma temperatura. Ficou em silêncio. E eu, que sei ler os silêncios dele melhor do que as frases dos outros, não deixei escapar.
- Senti sua falta. - falei, simples, porque as palavras grandes às vezes precisam de roupa de algodão.
Ele franziu a testa, não de dúvida, de susto.
- Eu estive aqui. - disse, honesto, como se defendesse presença com o calendário.

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