Valentina
Tentei ignorar a sensação que me atravessou quando vi Dante agindo daquela maneira atrás da porta cinza, no pátio de containers. Tentei, como quem abre a janela para o ar limpar a casa.
Mas a verdade é que ele é o Don Vitale. Se ele não age assim com os inimigos, eles fazem pior com ele, e comigo, e com quem respira no nosso telhado. O mundo dele não foi feito de mesa posta e flores no centro; foi feito de cercas, nomes e decisões que, se demorarem um segundo, viram epitáfio.
Pensei nisso na noite do shopping, pensei na manhã seguinte, pensei nos dias que vieram depois. Passei o dedo no canto da boca, no lugar do corte que já virou pele nova, e entendi uma coisa simples e imensa: meus sentimentos por ele não mudaram. Se fosse para escapar ao primeiro susto, eu teria seguido o carro do aplicativo direto para outra cidade. Eu fiquei.
E ficar vem com preço e com prêmio. O prêmio eu já conheço do cheiro: o peito dele no começo do dia, o riso rouco quando me provoca, o jeito como segura minha nuca quando o mundo perde o rumo. O preço eu estou aprendendo a pagar sem me vender: lidar com as faces dele. O homem que me beija na cozinha e o Don que arruma o mundo com a mão firme. Eu escolhi os dois. Agora preciso aprender a morar nesse plural sem me perder do singular.
Dias se passaram. Dante estava irritado e ocupado de um jeito que deixava as paredes tensas. Quando eu descia para o café, ele já tinha lido três relatórios, falado com quatro homens e decidido dois futuros. Ainda assim, todos os dias de manhã a gente achava um pequeno paraíso: um beijo longo demais para quem tinha pressa, uma mão quente sobre a minha no meio da mesa, um "bom dia, minha mulher" tão baixo que parecia segredo.
À noite, invariavelmente, eu dormia no braço dele, o nariz no lugar do pulso onde eu ouço o coração batendo mais do que o necessário. A casa inteira sabia onde nos encontrar quando o sono finalmente nos vencia: cama, lado esquerdo, minha perna jogada por cima da dele sem cerimônia.
Mesmo assim, uma barreira invisível começou a crescer. Não era falta, era excesso: excesso de medo guardado, de palavras que não saíam, de telefonemas que chegavam tarde e que ele atendia no corredor, para eu não ouvir. A gente se amava por inteiro, mas dormia com metades que se olhavam de longe. Eu sentia, claro que sentia. Eu posso ser muleca de rua, mas sei a diferença entre vento e correnteza. Então questionei: se a barreira é invisível, eu derrubo como? E a resposta veio linda: Aparecendo inteira. Nem que eu tenha que virar bola de demolição.
A ideia veio simples, como as boas ideias vêm: jantar. Só nós dois. Sem Mario, sem relatórios, sem campainha tocando. Mesa posta, música que sabe sair da sala quando as bocas entram, o meu vestido vermelho, o mesmo que ele olhou como se fosse pecado com absolvição, e no final, eu finalmente me entregando a ele. Sem pressa, mas sem escape. Eu quero dizer "sim" com o corpo todo. E quero que seja do meu jeito também: escolhido, marcado, meu.
Para fazer isso sem que o Don desconfie, eu precisava das minhas cúmplices. Teresa e Elisa conhecem o funcionamento dessa casa melhor do que qualquer planta baixa. Chamei as duas para a cozinha, que é o altar secreto das mulheres que fazem o mundo girar sem pedir anúncio no jornal.
- Fala, menina. - Teresa enxugava as mãos num pano de prato que parecia sempre limpo. - Essa cara é de quem inventou moda.
- Invente mesmo. - Elisa me disse rindo, reclinando na bancada de mármore, o rabo de cavalo para o lado. - Só não me faz esconder o corpo no jardim, que da última vez quase fui presa pela própria consciência.
- Não tem corpo, só fome. - anunciei de forma teatral. - E um plano.
As duas se aproximaram, como quem cerca uma fogueira.
- Hoje à noite eu quero um jantar. - comecei, gostando de como a frase ficou grande na boca. - Só nós dois. Sem santidade e sem pecado, só pressa zero. E eu quero usar o vestido vermelho.
Teresa cruzou os braços, sorrindo com os olhos.
- Ah, o vestido. - cantarolou. - A casa ainda comenta dele como quem comenta cometa. Passou e ninguém esqueceu.
- Então vai passar de novo, só que com órbita controlada. - devolvi, e nós três rimos.
- O que você pensou? - Elisa entrou no modo operação, que é o seu superpoder. - Salão de jantar ou jardim de inverno?
- Jardim. - respondi sem hesitar. - O limoeiro guarda a gente melhor do que as paredes. E foi ali que...
- Eu sei. - Teresa cortou, rápida, igual mãe que guarda confidências de filha. - Cuidamos disso.

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