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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 33

Dante

Valentina havia dito sim, mas eu não avancei o sinal. Não porque não queria, e sim para provocá-la um pouco mais. O provador era grande, mas parecia pequeno para nós.

A encarei pelo espelho, o vermelho no corpo dela era luz e silêncio ao mesmo tempo. Valentina encostou de lado no espelho, me olhou por cima do ombro com um sorriso que eu reconheço: "vem, mas vem bonito".

- Preciso de ajuda com o fecho. - ela disse, rouca de malícia, não de pressa.

- Ajuda é meu segundo nome. - respondi, chegando perto o bastante para sentir o cheiro do perfume brigando com a pele limpa.

Pousei as mãos na cintura dela, só isso, e antes do fecho, arrumei a alça que teimava em deslizar. Beijei devagar seu ombro, bem onde o tecido encontra a pele, um beijo curto, quase uma assinatura. Ela respirou fundo. O espelho devolveu nós dois: ela, corajosa; eu, grato.

- Se te apertar aqui... - disse, ajeitando o tecido na lateral do busto - ...fica mais confortável?

- Fica mais você. - ela riu baixo, a cabeça virando de leve para me alcançar com a boca. O beijo foi lento, sem provar nada para ninguém além de nós dois. Meu polegar desenhou a linha da clavícula até o ombro; a outra mão desceu só o suficiente para pedir licença no quadril.

- Me diz o que quer. - Eu pedi. Mas não por jogo, por costume.

- Quero que você me toque como se tivéssemos todo o tempo do mundo. - ela respondeu, clara. - E que pare onde precisa. Hoje é sobre isso.

Eu obedeci ao melhor tipo de ordem: a que nasce dos dois. Tirei o echarpe, que eu mesmo exigi a compra, já que a alça teimava, eu a deslizei de uma vez. Encontrei a pele quente, beijei de novo. A mão aberta pela lateral do corpo, descendo o vestido sem pressa, como quem decora um mapa. A respiração dela mudou de passo; a minha acompanhou. Não avançamos além do que prometemos a nós mesmos. Mas o que há é suficiente para acender o que importa: ela se inclinou até encostar as costas no meu peito e, com a nuca descoberta, me entregou um "fica" que não precisava de verbo.

- Está bem? - sussurrei contra a pele.

- Está lindo. - ela respondeu, umedecendo o lábio, os olhos nos meus pelo espelho. Eu sorri do homem que me torno quando ela me devolve esse olhar.

A tensão cresce do jeito certo, lenta, feliz, nossa, até que trememos os dois, não de pressa, de encontro. Quando o corpo pediu pausa, eu segurei a cintura, respirei com ela, beijei o canto da boca onde ainda havia a marca do sangue já limpo. Três segundos de carinho bastam para voltar ao mundo.

- Vem, te ajudo. - eu disse, e com o mesmo cuidado de um joalheiro lidando com a pedra mais preciosa. Alisei o tecido de seu vestido, arrumei a alça, peguei o echarpe novo, que ficava perfeito com o vestido simples também. Porque escondia o que era meu.

- Se continuar me arrumando assim, eu desarrumo tudo de novo. - ela me provocou.

- Guarda para mais tarde. - respondi, achando graça do destino ter nos colocado num provador caro para nos ensinar paciência.

Saímos de mãos dadas. Sofia nos esperava com uma sacola e um sorriso cúmplice. Minha mulher colocou o vestido vermelho dentro, agradeci com o olhar; ela entendeu. O gerente estava a uma distância segura, acenando desculpas que já ouvi e aceitei o suficiente para ir embora.

Foi quando notei um homem que não estava ali antes.

Não tinha cara de cliente, não tinha postura de vendedor. Era uma sombra sem profissão que sobrevive bisbilhotando as dos outros. Ele me olhou e desviou, mas, no desvio, o celular escapa e cai no piso. A tela acende. Por meio segundo, o reflexo do nosso provador aparece: dois perfis, um beijo roubado, a mão na cintura, a curva do vestido. Um fragmento íntimo que não pertence a ninguém além de nós.

- Dante... - Valentina levou a mão à boca.

A frase de Mario no carro me atravessa inteira: "o bobo que procura foto comprometedora". O sangue subiu e não pediu licença.

Eu avancei. O sujeito entendeu, no susto pegou o celular e correu. Eu poderia dizer apenas uma palavra e alguém resolveria por mim. Mas não hoje. Hoje é pessoal, a minha mulher foi exposta, o nosso pedaço de mundo virou isca.

- Fica com ela. - disse a Sofia, já em movimento. - Mario!

Ele surgiu no corredor como se tivesse sido chamado antes. Eu apontei com o queixo; ele entendeu, e a caçada começou.

O homem disparou pela ala norte, cortou por trás de um quiosque de perfumes, derrubou um display de batons, ganhou a escada rolante ao contrário. Eu não corro como desesperado; eu encurto distâncias. O espaço abre para mim do jeito que as pessoas abrem instintivamente quando a coisa séria passa.

Parei por um instante, avaliando o lugar, meu telefone tocou, só encostei no ouvido.

- Dois nossos no piso térreo, saída de carga. - A voz do Mario veio.

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