Dante
Idiota.
É isso que me define nesse momento, por pensar que ela não faria isso. O pensamento caiu dentro de mim com o peso de uma sentença. Desde o primeiro dia aqui, essa gata arisca me mostrou quem era, livre, teimosa, dona do próprio mapa. Por que diabos eu presumi que “não” soaria em Valentina como ordem e não como convite? Sorri, apesar da fúria. Porque é isso: o mesmo gesto que me irrita me encanta. A mulher que me dá paz é a mesma que me puxa da cadeira do Don e me obriga a lembrar que viver não é vigiar; é escolher, e eu escolhi ela.
— Don. — Mario, ao meu lado no banco traseiro, deixa a voz ficar densa sem ser dramática. Ele conhece o meu silêncio. — Três riscos no Shopping Riviera: dois prováveis, um remoto. Prováveis: Moretti tem participação num consórcio de segurança privada que presta serviço para dois andares do shopping; homens dele podem estar de plantão ou de “folga” por lá. E Calabrese tem dois sobrinhos que gostam de caçar problemas em praça pública, um deles faz vídeos, precisa de palco. O remoto: um bobo do gabinete do senador procurando foto comprometedora sua em ambiente público.
— E onde o remoto costuma virar provável? — perguntei, sem tirar os olhos da janela. A cidade corre, mas o relógio está no meu peito.
— Quando misturam mulher com perfume caro e câmera de celular. — Mario devolveu, seco. — E quando o alvo é bonito o bastante para virar trend em quatro minutos.
— Não o alvo. Minha mulher. — corrigi, e a palavra “minha” ajusta tudo dentro de mim: foco, pontaria, misericórdia zero.
— Sim, Don. — Ele destravou o celular, abriu o painel de rastreio que só ele e mais dois em todo o meu círculo tocam sem perder a mão. — Quer saber o andar?
— Agora.
A tela acendeu, o ponto azul respirou. Mario ampliou o mapa do shopping: planta baixa, alas batizadas com nomes idiotas de flores. O ponto pulsa no segundo piso, ala norte.
— “Maison Livia”. — ele lê o nome da loja. — Provadores grandes, duas saídas: a principal para o corredor e uma porta de serviço para o depósito, que dá no corredor interno dos funcionários.
— Quantos da nossa gente estão no perímetro?
— Dois já lá embaixo, no térreo, escondidos na cafeteria da esquina. Mais dois indo para a saída de serviços. E eu pedi para desviarem as câmeras do corredor norte. Nada vai para a central do shopping por cinco minutos. — Ele me olhou e perguntou. — O suficiente?
— Para quem sabe o que está fazendo, sempre é. — eu disse, e o carro desacelerou na rampa.
Desci antes que o motorista tivesse tempo de abrir a porta. O ar condicionado do shopping veio como gelo educado na cara quente da raiva. Não acelerei o passo; não corri. O Don não corre. Ele desloca o chão. Mario ao meu encalço, a mão esquerda dele já dentro do paletó, não para puxar a arma, hoje não, mas para puxar credencial que abre portas tão bem quanto aço.
— Don, chegaram as imagens da loja. — ele me mostrou o celular enquanto caminhávamos, e o que fui vendo, foi só me irritando.
Subimos dois lances de escada rolante. As pessoas fazem aquela coisa que sempre fazem quando suspeitam que viram alguém que importuna o destino: olham, fingem que não viram, cochicham. Eu não olho de volta. Nunca olho.
O corredor norte se abriu, a fachada preta com letras finas surgiu, a vendedora de coque atrás do balcão está com os olhos grandes demais, e a cena saiu da tela, e agora estava ali, bem na minha frente.
Valentina, vestida de vermelho. Vermelho que rebaixa o resto dos vermelhos do mundo ao posto de parentes distantes. Boca cortada no canto, sangue que já sei de cor. Um segurança com o braço torcido, a cara contorcida de dor justa. Outro com a mão erguida no ar prestes a cair, prestes, porque não vai cair. E uma loira de salão caro colada à beira da confusão, risinho de quem cresceu acreditando que tudo é dela por decreto, inclusive o que respira.
— Coloca as mãos na minha mulher mais uma vez, e veja o que acontece. — Minha voz saiu antes de o meu corpo chegar inteiro, e ainda assim chegou primeiro.
A loja fez silêncio como se obedecesse a um hino. O segurança que tinha a mão levantada congelou; a vendedora engoliu o choro que estava a um fio; a loira arregalou tanto os olhos que o rímel quis descer e não teve coragem. Valentina me olhou, não para pedir socorro, mas para medir a minha temperatura. Senti uma onda quente de orgulho e outra, fria, de cálculo.
Me aproximei. Mario abriu dois passos de espaço com o corpo, sem tocar em ninguém. Parei a um metro de Valentina e a um palmo do homem que ousou tocá-la. Não ergui a voz. Não preciso disso.
— Mãos à vista. — disse ao segurança mais alto. — As duas.

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