Valentina
Endireitei os ombros como meu tio me ensinou: postura antes da palavra, primeiro a gente se impõe, o resto depois acontece. Ajustei a alça do vestido, olhei a estranha como se ela fosse uma prateleira fora do lugar e devolvi com um sorriso que não pedia licença:
- Que bom. Eu não saí de casa para combinar com o seu gosto.
Ela piscou um segundo, surpresa por ver alguém que não recua no primeiro golpe. O susto virou deboche instantâneo, a escola de quem não apanha sem chamar o pai.
- Querida, é só uma dica. - as palavras saíram meladas de um nojo doce. - Este vestido pede elegância. Pedras assim... - ela apontou com a ponta da unha perfeita. - ...pesam em quem não sabe usá-las.
- Pedras pesam menos do que uma língua mal-educada. - respondi, sem elevar o tom. - Mas uma puxa a outra, né?
Sofia mordeu o lábio para esconder o riso. A loira deu dois passos, invadiu meu espaço como quem invade o quintal. O perfume dela era aquele tipo que chega antes do corpo e permanece depois do arrependimento.
- Olha, eu entendo. - ela continuou, e o tom "eu entendo" é sempre uma ofensa quando usado por quem não entende nada. - Nem todo mundo nasceu para... - fez um gesto vago, como quem abrange "isso aqui": seda, luz, preço, soberba. - Você parece... deslocada.
- Curioso. - Cocei o queixo com o indicador, falsa distração que aprendi com o meu tio quando queria tirar a briga do caminho e levar a briga pro bolso. - Eu estava pensando exatamente isso de você. Esse glamour te veste, mas não te cabe. Fica grande no ego e pequeno na alma.
Ela riu curto, um latido.
- Alma? - debochou. - Que palavra... fofa.
- Verdade. - Concordei. - Tem gente que nem sabe escrever.
- Você sabe com quem está falando? - o clichê clássico apareceu mais rápido do que eu esperava. Insegurança sempre procura bengalas quando o salto vacila.
- Com uma mulher que acha que o mundo foi feito na medida de suas sacolas. - sorri, paciente. - E com uma vendedora inteligente o suficiente para não perder uma cliente boa - apontei para mim - por causa de uma velha cliente barulhenta - apontei levemente para ela, sem encostar. - Sofia, por favor me diga que "cliente barulhenta" não tem desconto por decibéis.
Sofia soltou um riso aberto, humano.
- Se tivesse, já estava no plano fidelidade. - ela me devolveu, cúmplice. E sorri para ela.
A loira endureceu. O rosto bonito ganhou uma ponta de feiura, aquela que mora nos olhos de quem foi contrariada desde criança e aprendeu a morder em vez de ouvir.
- Você realmente não sabe com quem fala. - repetiu, agora sem mel, puro fel. - Nem o que pode acontecer quando se mete onde não é chamada.
- Eu me meto onde me convidam e onde eu compro. - toquei de leve a etiqueta que ainda pendia do vestido. - Essa loja tem venda? Por que eu tenho cartão. E gosto do que vejo no espelho.
- Não combina. - insistiu, chegando mais perto, o dedo já a dois centímetros de mim. - A não ser que seu objetivo seja parecer... uma arrivista. - disse no italiano perfeito que as más intenções aprendem.
- Melhor arrivista do que arrivista de berço. - devolvi, gostando do sabor da palavra. - Essas nunca chegam, só ocupam lugar, sabia? Não? - perguntei, colocando a mão no peito em falsa surpresa.
O olhar dela faiscou com ódio velho. Eu reconheço: é o mesmo que vi em meninas que perderam o namorado para uma verdade e culparam a outra menina. Se Dante estivesse aqui, teria lido o cenário em um segundo. A loira escreveu "território" na testa sem giz.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida Ao Don Da Máfia