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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 30

Valentina

Endireitei os ombros como meu tio me ensinou: postura antes da palavra, primeiro a gente se impõe, o resto depois acontece. Ajustei a alça do vestido, olhei a estranha como se ela fosse uma prateleira fora do lugar e devolvi com um sorriso que não pedia licença:

- Que bom. Eu não saí de casa para combinar com o seu gosto.

Ela piscou um segundo, surpresa por ver alguém que não recua no primeiro golpe. O susto virou deboche instantâneo, a escola de quem não apanha sem chamar o pai.

- Querida, é só uma dica. - as palavras saíram meladas de um nojo doce. - Este vestido pede elegância. Pedras assim... - ela apontou com a ponta da unha perfeita. - ...pesam em quem não sabe usá-las.

- Pedras pesam menos do que uma língua mal-educada. - respondi, sem elevar o tom. - Mas uma puxa a outra, né?

Sofia mordeu o lábio para esconder o riso. A loira deu dois passos, invadiu meu espaço como quem invade o quintal. O perfume dela era aquele tipo que chega antes do corpo e permanece depois do arrependimento.

- Olha, eu entendo. - ela continuou, e o tom "eu entendo" é sempre uma ofensa quando usado por quem não entende nada. - Nem todo mundo nasceu para... - fez um gesto vago, como quem abrange "isso aqui": seda, luz, preço, soberba. - Você parece... deslocada.

- Curioso. - Cocei o queixo com o indicador, falsa distração que aprendi com o meu tio quando queria tirar a briga do caminho e levar a briga pro bolso. - Eu estava pensando exatamente isso de você. Esse glamour te veste, mas não te cabe. Fica grande no ego e pequeno na alma.

Ela riu curto, um latido.

- Alma? - debochou. - Que palavra... fofa.

- Verdade. - Concordei. - Tem gente que nem sabe escrever.

- Você sabe com quem está falando? - o clichê clássico apareceu mais rápido do que eu esperava. Insegurança sempre procura bengalas quando o salto vacila.

- Com uma mulher que acha que o mundo foi feito na medida de suas sacolas. - sorri, paciente. - E com uma vendedora inteligente o suficiente para não perder uma cliente boa - apontei para mim - por causa de uma velha cliente barulhenta - apontei levemente para ela, sem encostar. - Sofia, por favor me diga que "cliente barulhenta" não tem desconto por decibéis.

Sofia soltou um riso aberto, humano.

- Se tivesse, já estava no plano fidelidade. - ela me devolveu, cúmplice. E sorri para ela.

A loira endureceu. O rosto bonito ganhou uma ponta de feiura, aquela que mora nos olhos de quem foi contrariada desde criança e aprendeu a morder em vez de ouvir.

- Você realmente não sabe com quem fala. - repetiu, agora sem mel, puro fel. - Nem o que pode acontecer quando se mete onde não é chamada.

- Eu me meto onde me convidam e onde eu compro. - toquei de leve a etiqueta que ainda pendia do vestido. - Essa loja tem venda? Por que eu tenho cartão. E gosto do que vejo no espelho.

- Não combina. - insistiu, chegando mais perto, o dedo já a dois centímetros de mim. - A não ser que seu objetivo seja parecer... uma arrivista. - disse no italiano perfeito que as más intenções aprendem.

- Melhor arrivista do que arrivista de berço. - devolvi, gostando do sabor da palavra. - Essas nunca chegam, só ocupam lugar, sabia? Não? - perguntei, colocando a mão no peito em falsa surpresa.

O olhar dela faiscou com ódio velho. Eu reconheço: é o mesmo que vi em meninas que perderam o namorado para uma verdade e culparam a outra menina. Se Dante estivesse aqui, teria lido o cenário em um segundo. A loira escreveu "território" na testa sem giz.

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