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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 29

Valentina

Sair de casa não foi fuga. Foi lembrança de quem eu era antes de aprender a dormir com o coração no compasso de outro peito. Muleca de rua tem relógio próprio e um mapa gravado nas solas: portas de serviço, sombras que a luz não alcança, gente que não olha duas vezes. A ala leste da mansão dá num pátio onde os carros de funcionário respiram sem vigia permanente. Teresa sempre deixa uma toalha de mesa secando num varal baixo, como quem estende bênçãos. Passei por ela sem culpa. Se Dante perguntar, direi a verdade: eu precisava de ar. E de uma afirmação que não coubesse dentro do quarto.

Na primeira semana nesta casa, Teresa me entregou um celular e um cartão com um "use quando precisar, menina", dito no tom de quem viu muita gente se perder por não aceitar ajuda. Hoje eu precisava. Enfiei o cabelo dentro de um lenço creme, óculos escuros emprestados de uma gaveta que a casa finge que não tem, e a coragem presa com um prendedor de metal.

O aplicativo abriu como uma porta automática. "Seu motorista, Enzo, chegará em 4 minutos." Quatro minutos que foram uma vida de lembranças: feiras baratas, vitrines caras, a sensação de ser invisível sendo tudo o que se tem para mostrar.

O portão da lateral rangeu na medida certa para não denunciar ninguém. Enzo chegou com um carro limpo, cheiro de eucalipto e um adesivo colado no painel: "Sorria, a vida retribui". Quase ri. Sentei atrás, como quem mede distância.

- Bom dia, signorina - ele cumprimentou, o sotaque italiano roçando o r.

- Bom dia. Shopping Riviera, por favor. - Eu não conhecia a cidade de mapa, mas nomes pomposos apontam caminhos parecidos em qualquer lugar do mundo. Do outro lado, eu sabia, haveria uma rua menos brilhante. Se não houvesse, eu inventaria.

A cidade passou pela janela com pressa de mar. O centro antigo exibiu sacadas de ferro e roupa no varal, a beleza despretensiosa dos lugares, quiçá mais honestos do que as avenidas novas. Depois veio o pedaço rico, onde os pinos do cartão funcionam até com o pensamento e a luz do sol parece obedecer a um manual de fotografia: vitrines altas, mármore que pisca, baristas tão arrumados quanto noivos. Entre um e outro, uma praça com crianças correndo atrás de pombos, e uma senhora de vestido azul-marinho distribuindo pedaços de pão.

O Shopping Riviera ergueu-se como um navio de vidro ancorado no concreto. Enzo me deixou no drop-off das senhoras que andam devagar com pressa, só pra se dizer elegante. Eu me vi no reflexo da porta e quase não me reconheci: a febre se foi, o olhar não. Entrei, as portas deslizantes sussurraram boas-vindas. Quem inventou esse som nunca precisou que o mundo abrisse para si; deve ser por isso que me comove.

Escolhi o corredor que cheirava a perfume caro com notas de baunilha e promessa. Uma vitrine me puxou pelo vestido creme com botões de pérola que abraçava um manequim como amante antigo. Mas foi na segunda loja que eu entrei: "Maison Livia", letras finas na fachada preta, duas manequins com silhuetas de silêncio.

- Buongiorno! - a voz cantou antes do sino. - Posso ajudar?

A vendedora era um sol elegante vestido de preto. Cabelo preso num coque que não intimida, olhos de quem sabe ouvir 'talvez' e traduzir para 'sim'. O crachá dizia "Sofia". O sorriso dizia "fica mais".

- Quero... me vestir de mim, mas melhor. - arrisquei.

- Então você veio ao lugar certo, signorina. - e a felicidade profissional dela não era fake; era vocação. - Vamos brincar?

Brincar. Fazia tempo que não vestia essa palavra. E brincamos. Sofia me trouxe calças de alfaiataria que se recusavam a ser sérias demais, camisas de seda que desciam nos ombros como se tivessem aprendido educação formal, um blazer de linho que me fez pensar no que é poder quando não usa cinza. Eu saía dos provadores com a vontade de me ver, como se não lembrasse onde havia me guardado. Estranho, né? Mas real.

- Sapatos? - ela perguntou, com um brilho conspirador.

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