Dante
Valentina ainda estava sob mim, me olhando com seus olhos castanhos.
- Agora que a doutora me deu alta... - ela começou, voltando a me acariciar. - Pode me fazer sua de verdade.
- Ah é? - perguntei com malícia, passando meu nariz por seu pescoço. - Posso então? - perguntei com a voz rouca.
- Siiim... - me respondeu com um gemido, fechando os olhos. Sorri pelo seu jeito e me perdi enquanto a olhava por um instante. Eu poderia ficar assim até o mundo consertar todos os seus portos e devolver a inocência aos homens. Mas ordem é ordem, inclusive as que me dou.
- Eu vou... - murmurei e ela abriu os olhos, o desejo estampado neles. - Mas não agora, querida. - disse, e, só por sadismo pedagógico, saí da cama, indo ao banheiro.
- Dante! - a reclamação vem farta, indisciplinada, deliciosa. - Você me paga.
- Com juros e correção. - ri, abrindo o chuveiro. - E com qualidade máxima. - gritei do banheiro e a ouvi resmungar.
Mesmo depois do que tivemos, a senhorita Rojas ainda estava bicuda por eu ter recusado tomá-la para mim naquele momento. Ela entrou no chuveiro, e tomou banho na minha frente, tentei persuadi-la, mas essa tem o orgulho gravado até nos ossos.
Ela saiu, e eu me banhei. Alguns minutos depois retornei ao quarto. Ela procurava o que vestir, cabelos presos de qualquer jeito, linda de um jeito que desafia a lógica. Coloquei uma das roupas que Teresa trouxe do meu quarto, ela um vestido leve. A ajudei a fechar o botão nas costas do vestido. Ela segurou meu pulso por um segundo a mais do que seria preciso. Eu entendi, e beijei o ombro nu antes de soltar.
Descemos para o café. Teresa tinha preparado a mesa no jardim de inverno, a claridade moldurando a porcelana, frutas e pães disputando espaço, café recém-passado. "Bom dia" ganha outra cor quando a casa percebe que agora está tudo bem. Teresa nos observava com aqueles olhos de quem cria asas sem jamais ter aprendido a voar.
- Hoje a casa acordou mais leve, Don. - ela diz, e me entrega o jornal como quem oferece benção. - E a senhorita Rojas está corada, como deve.
- A senhorita Rojas está insaciável. - respondi baixo, só para Valentina ouvir. Ela pisou no meu sapato por baixo da mesa; eu mereci. Mas não perderia a oportunidade de provocá-la assim.
Comemos pouco. Falamos muito com os olhos e pouco com as línguas. Meu telefone vibrou duas vezes; ignorei até terminar o café. Quando pousei a xícara, Mario apareceu à porta, discreto e denso. Ele sabe a hora exata de pesar e a de sumir.
- Don. - Disse com um aceno curto para mim, outro, respeitoso, para ela. - Precisamos conversar.
O sorriso de Valentina anunciava a maldade mansa.
- Então eu vou aproveitar para sair e comprar umas coisas. - ela informou com naturalidade estudada, aquela que ela usa quando quer testar meus limites.
- Não. - a resposta sai antes da diplomacia. - Hoje, não.
- Dante... - ela ajeita o guardanapo, com a paciência de santa que guarda uma bomba. - Estou bem. A médica disse. Não vou longe. Vou e volto.
- Não. - repito, o cinza do meu olhar provavelmente mais visível do que eu gostaria. - A casa ainda está sob investigação. Minha gente está na rua e nos corredores. Você não sai sem escolta. E hoje nem com escolta.
- Eu não sou uma mercadoria. - ela rebate, com aquela firmeza que eu admiro e amaldiçoo. - Sou sua mulher. E mulheres fazem compras. - a frase tem doçura e pólvora, cinquenta a cinquenta.
- Mulheres que amo não se tornam alvo a céu aberto no dia seguinte à alta. - falei em um tom baixo, perigoso por cuidado, não por raiva. - Você espera. Termino e eu mesmo te levo.
- Ou seja, "espera, menina". - ela disse, erguendo uma sobrancelha, as mãos espalmadas na mesa como quem pede calma ao próprio sangue. - Você sabe que eu não volto para a gaiola, não sabe?
- Não é gaiola. - expliquei, paciente como se estivesse falando com dinamite. - É perímetro de segurança.
- Palavra de homem que aprendeu a chamar cerca de jardim. - me respondeu sorrindo, lindo e cortante. - Termina sua reunião então, Don. Eu vou tomar ar.
- Valentina. - meu aviso é uma mão no ombro de um cavalo. - Eu disse não.
- Vê se termina com "breve", então. Acho que essa o Don entendeu. - ela rebateu e se levantou. Teresa, do balcão, me olhou de viés, pedindo que eu escolhesse as palavras certas. Mario mede o clima com a experiência de quem já desarmou cem bombas e sabe quando a centésima vai explodir.
- Eu volto. - ela disse para mim, não para a casa.
- Você não sai. - falei, não deixando espaço para equívoco.

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