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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 25

Valentina

- Nem mesmo eu?

O silêncio mordeu as beiradas do escritório antes que a pergunta encontrasse o corpo dele. Dante virou a cadeira devagar, como quem gira um canhão. Os olhos cinzas estavam frios, a mandíbula travada. O Don inteiro, sem um fiapo do homem que me troca a compressa na madrugada.

- O que faz fora do quarto? - disse seco, cortante, técnico. Uma sentença, não uma pergunta.

O golpe me pegou no lugar certo. Eu tinha preparado respostas para o ciúme, para a provocação, para a ironia; não para a indiferença. Mesmo assim, ergui o queixo como quem coloca a coroa de si mesma.

- Vim te ver. Você não passou no quarto hoje. Nem almoçou comigo. - segurei a voz pela gola para ela não tremer.

- Passei a noite inteira ao seu lado. - ele rebateu sem emoção. - E não tive tempo de ir até lá.

Engoli a resposta como quem engole remédio amargo. Ele se levantou, alto, sólido, o terno desenhando geometrias que eu aprendi com as mãos sem nunca admitir. Aproximou-se sem tocar.

- Eu ia passar mais tarde para saber como estava. - continuou, a voz ainda no registro que comanda homens. - Agora volte para seu quarto.

Virou-se e abriu a porta para mim. Sem um beijo. Sem um toque. Sem um sorriso. Só o vento gelado de uma ordem.

Eu fiquei parada por um segundo inteiro que durou uma vida. Olhei o homem que me carregou quente para a banheira, o mesmo que agora me escoltava de volta ao lugar de doente com o braço da porta, não com o braço do peito.

Caminhei até ele com calma que não era paz; era pontaria. Parei ao seu lado. Senti o cheiro limpo do sabão e das madrugadas de vigília.

- Já te vi. - informei, como quem entrega uma mercadoria. - O que significa que não precisa passar no meu quarto mais tarde.

Dei mais dois passos e parei de novo. O silêncio dele me puxava como ímã e me empurrava como muro.

- E nem precisa dividir a cama comigo esta noite. - acrescentei. - Passar bem, Don Vitale.

Saí antes que o orgulho pedisse resgate. O corredor me engoliu e eu caminhei rápido, não de fuga, de direção. Ouvi meu nome atrás de mim, a sirene que eu conheço:

- Valentina.

Ignorei. A minha raiva tinha pernas novas.

A casa se abriu num mapa que eu já decorei de tanto atravessar pensando nele. Os retratos viraram sombras de teatro às pressas. Passei pelo hall da escada, pela mesa de mármore onde Teresa coloca flores, pela porta de vidro que dá para o pátio interno. O jasmim veio forte, a brisa úmida anunciando nuvens. Escolhi o jardim.

Empurrei a porta dupla de ferro trabalhado e o mundo ficou verde. O jardim da ala sul é um refúgio que parece não pertencer à mesma mansão: parreiras formando um teto vivo, um caminho de pedras, banco de madeira sob a sombra larga de um limoeiro antigo, um chafariz que fala baixo. O ar tem cheiro de limão e terra molhada mesmo sem chuva. Entrei ali como quem procura um confessionário.

- Valentina. - A voz dele veio de novo, mais perto agora.

Segui, fingindo não ouvir. O cascalho protestou sob minhas sapatilhas. Dobrei à esquerda, mergulhei num corredor de trepadeiras, segui até a clareira onde o sol pinta manchas na grama. Parei junto ao limoeiro, respirei fundo, encostei a mão no tronco. A casca áspera me devolveu lembranças do meu tio me ensinando que limão cura quase tudo e que o resto a gente aguenta com açúcar.

Os passos dele chegaram por trás. Um, dois, três. Pararam a dois palmos de mim. Não virei.

- Eu te chamei. - ele disse, o controle filtrado, menos Don, mais homem ferido e tentando esconder.

- E eu decidi não ouvir. - respondi, clara. - Viu como funciona quando a gente ignora alguém?

A pausa dele partiu ao meio uma folha. Senti.

- O que foi isso lá dentro? - perguntei antes que ele fizesse qualquer discurso. - Quem era aquele homem sentado na minha cadeira de vigília? Porque esse que eu vi agora foi o Don me abrindo uma porta como se eu fosse uma funcionária atrasada para o turno.

- O que você viu foi a proteção que eu posso te dar. - ele devolveu, firme. - E é maior quando você obedece.

Eu ri, sem alegria.

- Obedecer. - provei a palavra na língua. - Aquilo não foi sobre obediência, nem mesmo proteção. Foi sobre você mais uma vez me afastar.

- Não te afastei, só me preocupei e pedi para que voltasse para o quarto. - ele rebateu, ainda seco.

- Então você me vê como uma paciente, não como sua mulher?

- Claro que não. - respondeu, irritado. - Mas não pode me julgar por querer você viva. Por não concordar em aparecer no meu escritório quando devia estar em seu quarto protegida e descansando.

Virei, por fim. A luz filtrada pelo parreiral bateu nos olhos dele e achou aço.

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