Valentina
Desde a discussão com Dante por causa de Giovanni, um fantasma sussurra no fundo da minha cabeça: "Ele vai te deixar".
O pânico tem memória boa; ele sabe o caminho das minhas costelas, conhece o atalho pelo estômago. Quando ouvi meu próprio nome na voz do Don frio, cortante, armado, alguma coisa em mim voltou a ser aquela menina de dezesseis anos, num quarto emprestado, juntando as coisas depressa antes que o mundo dissesse "não é mais seu".
Eu disse coisas que doeram, ele disse coisas que cortaram, e, durante um segundo comprido demais, temi o pior: o barulho da porta fechando por fora e a casa inteira me devolvendo ao silêncio de quem fica.
Mas a vida tem um jeito de nos desmentir quando mais precisamos. E mesmo depois da briga, ele voltou.
Na noite em que meu corpo se acendeu como brasa e as palavras se soltaram de mim sem filtro, "Se é para viver sozinha de novo, me leve", eu pensei no meu tio. No cheiro de café passado forte demais, nas mãos grandes atrapalhadas com botões, no jeito de me cobrir até o queixo quando eu dizia que tinha pesadelos. Meu tio me ensinou a diferença entre cuidado e controle, entre presença e vigia. Com ele, eu aprendi que amor também é um copo de água deixado na cabeceira sem ninguém anunciar que deixou; amor é saber que alguém pode dormir porque outro está acordado.
Dante me devolveu essa sensação. Da maneira dele: mais áspera nas bordas, mais afiada no centro. Mas ainda assim real.
A última semana foi feita de pequenos ritos. A médica indo e vindo com tubos e termos que eu aprendi a repetir, alcaloides, painel, coleta seriada. Renata, a enfermeira de olhos que nunca dormem, trocando soros com uma delicadeza que não pede licença; a borboleta do acesso entrando na pele como se fosse parte de mim. Teresa e Elisa revezando visitas a cada meia hora, uma trazia água, a outra trocava a compressa, e entre as duas, minha vontade de dizer "obrigada" não cabia no peito.
E ele. Sempre ele.
Dante não permitiu que eu ficasse sozinha por mais tempo do que o necessário a um banho e, quase sempre, nem isso. Dormiu comigo todas as noites: às vezes com o corpo todo no meu, outras só com a mão encaixada na minha, como quem segura uma corda enquanto o outro atravessa a ponte.
Eu o vi trocar o pano da minha testa sem chamar ninguém, medir a febre com a face encostada à minha, como se os ossos dele soubessem calcular grau. Eu o vi ser paciente com meus enjoos, firme com os horários de remédio, terno com meus silêncios. Ele se tornou, e eu digo isso com a serenidade de quem reconhece a verdade quando ela encosta, o lugar mais seguro que já tive desde o meu tio.
Isso seria suficiente para me fazer chorar se eu já não estivesse... perdida. Sim, eu estou perdidamente apaixonada por Dante Vitale, pelo homem, não pelo Don. Não pelo poder que ele carrega nos passos, mas pelo cuidado que ele finge que não tem. Pelo beijo que interrompe o pânico, pelo sussurro que devolve sono, pelo "minha mulher" que eu ouvi de longe e fingi que não ouvi, só para que a coragem nascesse quieta.
Eu amo esse homem de um jeito que me assusta e me alinha, que me pede para ficar e para ir junto. E, no meio de soro, exames e compressas mornas, amar dói menos do que doía antes. Talvez porque, desta vez, ao dizer "fica", alguém responde "tô aqui".
O relógio chegou ao meio-dia devagar. O quarto estava claro num dourado sem vaidade, e o bip do oxímetro fazia companhia sem invadir. A dor de cabeça tinha virado só sombra. Então bateram à porta.
- Com licença, menina. - Teresa apareceu equilibrando uma bandeja que cheirava a casa: caldo de legumes, um risoto claro de limão e parmesão, fatias finas de pera e um copo de água com gelo. - A fome veio?
- Timidamente. - sorri, já erguendo o tronco. - Se for comida de Teresa, ela chega mais corajosa.
Ela riu com aquele riso que benze.
- Hoje o sol resolveu ser educado. - comentou, puxando um pouco a cortina. - Brisa boa do jardim. - me disse sorrindo.
- Deu vontade de ir até a biblioteca. - confessei, como quem pede permissão para atravessar a rua.
- Podemos tentar mais tarde. - ela ponderou, olho rápido no gotejar do soro. - Devagarinho. Sem escada. Eu peço para abrirem as portas grandes por baixo, menos degraus.
- Obrigada. - misturei o risoto, respirei o perfume do limão. - E o... Dante? - deixei que o nome saísse limpo. - Ele não vai almoçar comigo hoje?
Teresa suspirou do jeito de quem escolhe as palavras no armário mais alto.
- O Don está furioso. - disse, simples. - Parece que houve problemas em um dos negócios. Não sei dizer qual. Só sei que Mario entrou e saiu duas vezes esta manhã. E me disse que o Don não ia almoçar.
Eu mastiguei devagar, e a comida assentou sem brigar. A fúria dele não me assustava mais como antes. Eu já aprendi a medir o clima: quando a raiva é vento que derruba, quando é só nuvem que passa. Hoje soou mais como tempestade no horizonte do que dilúvio. Mesmo assim, um nó pequeno se fez no estômago.
Terminei quase tudo sob o olhar secreto de Teresa, que finge que não confere o prato, mas confere.
- Vai me odiar se eu disser que estava bom? - brinquei, mostrando que só tinha deixado um pouquinho.
- Vou te amar se você disser que quer mais. - retrucou, ajeitando o copo. - Mas não precisa forçar, Renata já vem com a medicação.

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