Dante
Mario desalinhou um passo do batente, aproximou-se o suficiente para ser ouvido sem que a casa escutasse. Eu não precisei convocar. Ele já tinha uma pasta invisível aberta no ar.
- O veneno. - comecei.
- As "Erbe di Liguria" estão na geladeira da copa, lacradas. - disse. - O rótulo é oficial, mas a gráfica... não é. Os lotes impressos não batem com o cadastro da cooperativa.
- Falsificação. - resumi.
- Boa o suficiente pra enganar quem não olha duas vezes. - Mario seguiu. - Rastreamento da entrega: saiu de um depósito em Sarzana, pertencente a uma empresa de logística ligada, por interposta pessoa, à construtora do aditivo de dragagem.
Senti o riso curto subir sem humor.
- E a construtora do aditivo é...
- Consórcio Aminea. - ele completou. - Dois sócios majoritários, uma off em Malta. O assessor Nicola Calabrese, braço direto do gabinete do Moretti, aparece na ata de uma reunião com a cooperativa de ervas há três meses.
Moretti. Sempre o círculo perfeito fechando onde eu já esperava.
- Câmeras. - pedi.
- A pane de onze minutos no quadro secundário veio de alguém que conhece a casa. - Mario não fala "acho"; fala "é". - A chave foi desligada com luva. Sem digitais. No intervalo, a copa ficou às escuras. Bianca, a copeira nova, 'foi ao banheiro' no mesmo minuto. Rosa, que cobriu o turno, confirma.
- A Bianca falou?
- Ainda não. - os olhos de Mario ficaram de pedra. - Vai falar.
- Sem quebrar. - lembrei, e ele entendeu. Eu quero nome, não rumor.
- Sim, Don.
- Cruze essa Bianca com o depósito de Sarzana, Calabrese e qualquer função no comitê da obra do porto. - ordenei. - Se tiver foto, melhor. Se tiver recibo, perfeito.
- Já pedi a dois olheiros na alfândega dos caminhões: placas que entraram com entregas 'cortesia'.
- Bom. - respirei. - E o senador.
Mario mudou de pasta mental.
- O carro oficial com o HD viaja hoje às quinze, saída de Viareggio, b**e em Pisa às dezesseis e meia, segue para Florença, protocolo na Guarda de Finanças às dezoito. - ele traçou o roteiro com a mão. - Escolta leve. Duas motos e um carro.
- Ponto fraco.
- Trecho entre Pisa e Montopoli. Rota velha com obra de acostamento, uma faixa. Se houver "pane" num carro de carga, a fila trava.
- Pane. - repeti, como quem elege tática. - Sem drama. Sem feridos. Só atraso.
- Em meia hora de transtorno, 'perde-se' uma pasta. - Mario disse, mas não sorriu. - E 'acha-se' que jamais existiu.
- Não quero a morte do jornalista, - alertei - quero convicção.
- Já mapeei a fraqueza. - Mario não perguntou se eu queria ouvir; informou. - A mãe do rapaz está com a luz cortada, e ele paga um quarto alugado atrasado. Não compraremos silêncio, daremos razão. Mostramos a ele o que há no HD, o que o queima não é ele, é o político. Oferecemos proteção e uma pauta que mostre o rei nu quando o rei cair.
Olhei para Valentina. Se ela estivesse com os olhos abertos, veria que meus "negócios" não são só faca. Às vezes são remendo.
- Rinaldi. - voltei ao sindicato.
- Almoça com o padre às doze e meia, sai às quatorze. Tem queda por histórias de família; perdeu um irmão em acidente no cais.
- Então damos a ele duas coisas: garantias para os homens e respeito ao morto. - falei. - Contrato de segurança da doca norte firmado com auditoria independente. E, na inauguração, a fita é cortada por ele, no nome do irmão.
- O padre aceita se a doação for pro abrigo. - Mario concluiu o que eu não disse.

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