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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 20

Dante

Ela acordou, ela está bem, e eu? Tô completamente fodido.

Não por doença. Por lucidez. Porque quando a vi abrir os olhos e girar o rosto para mim, a casa inteira mudou de eixo. Havia febre ainda, havia medo ainda, mas havia algo pior para quem vive de controle: querer. E querer muito. Eu a beijei para calá-la do pânico e me dei conta, no exato momento em que a boca dela cedeu, que não era só remédio. Era vício.

Fiquei sobre ela o suficiente para provar do que eu mando e para aprender o que já não comando. A mão dela no meu antebraço disse "fica", a minha sobre o pescoço dela respondeu "tô aqui". E quando encostei a testa na dela e prometi "hoje eu só quero ter certeza de que você está bem", ouvi a minha própria mentira favorita rachar... eu queria mais.

Só escolhi não tomar.

Bateram, duas vezes. A respiração dela prendeu, a minha também, e Teresa cortou o umbral com voz baixa:

- Don, o senhor tem visita.

- Não aguardo ninguém. - respondi, sem tirar as mãos dela. - Diga que não vou falar com ninguém hoje.

Teresa hesitou um segundo. Olhou para mim, para Valentina, e de volta para mim.

- Don... é o senhor Moretti.

O nome caiu no quarto como chumbo em água rasa. Senti o corpo de Valentina enrijecer sob o meu; o meu também. Moretti... E, por reflexo lógico, Giovanni. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela sussurrou, com a sinceridade que não poupa nem quem ama:

- O que será que Giovanni quer? Será que ele se arrependeu?

Ao ouvir sua pergunta, um sentimento que eu nunca senti, porque nunca precisei, me atingiu. Ciúmes. Cru, simples, idiota. E foi por isso que eu fiz a única coisa que sei fazer bem quando algo me sangra por dentro. Mandei a dor vestir armadura.

Sem tirar os olhos dela, falei para Teresa:

- Avise que já vou. - E a porta se fechou.

Voltei para Valentina. O quarto inteiro cheirava a banho morno e a desafio.

- "Se arrependeu?" - repeti, devagar, para não gritar. - Esse é o assunto que te interessa agora?

- Eu só... perguntei. - ela ergueu o queixo, não pediu desculpa. - Curiosidade, Dante. Ou você acha que eu não posso...

- Eu acho que você quase morreu nos meus braços há poucas horas. - cortei curto. - E que o nome dele não é a primeira coisa que merece atravessar sua boca.

- Minha boca é minha. - devolveu, firme. - E minha história também.

- Sua história agora passa por mim. - respondi, deixando o Don sentar na cadeira do homem.

- Não me compra outra vez com essa frase. - o olhar dela feriu. - Você não tem esse direito.

- Eu tenho todos os direitos quando o assunto é cumprir seu propósito. - aproximei o rosto, não para beijar, mas para que cada sílaba chegasse inteira. - E se mencionar o Moretti te tira o foco, então eu tiro o Moretti da sala.

- Saia, então. - ela revidou, baixinho, mas com artilharia. - Você é o Moretti da sala agora.

A frase b**eu como um tapa onde ninguém b**e. Meu silêncio não foi nobre; foi pólvora. Senti a linha dentro do peito arrebentar. O Don voltou inteiro.

- Você quer brigar comigo por causa do homem que te vendeu, te abandonou? - minha voz saiu limpa, perigosa. - Ótimo. Brigue. Mas não espere que eu te trate como cristal e te escute perguntar se ele se arrependeu.

- Eu não pedi que me tratasse como cristal. - ela retrucou, os olhos molhados de febre e de brio. - Pedi que me tratasse como pessoa. E, já que estamos falando de abandonar... - o golpe veio sem pena - quem sumiu duas semanas foi você.

Senti o dente doer por dentro. Eu podia pedir perdão. Eu podia. Escolhi a pior coisa: poder.

- Acabou a conversa, Valentina. - ergui do colchão, seco. - Descanse. - Dei as costas.

- Ótimo, então saia logo do meu quarto. - ela ordenou, enfiando a palavra como faca.

Saí. Furioso. E, por orgulho, não mandei ninguém ocupar meu lugar.

No corredor, Teresa veio atrás de mim, leve e urgente.

- Senhor... - ela tentou me segurar pelo nome que a casa entende. - Ela ainda pode ter uma nova crise.

- Se está bem para querer saber se Giovanni se arrependeu e para brigar comigo, está bem para ficar sozinha. - respondi, cortando a única pessoa que não merecia corte. - Prepare o escritório. Eu vou receber o Moretti. Agora.

A sala de reuniões cheirava a couro, papel e ameaça. Mario já me esperava, discreto, sombra de parede. Não precisei mandar nada, ele já havia varrido os cantos com os olhos que contam homens como quem conta munição.

- Don. - ele assentiu.

- Três passos atrás de mim. E ouvidos abertos. - ordenei.

A porta abriu com pontualidade de pecado grande. Entrou o pai, não o filho. Terno azul-marinho feito de votos alheios, sorriso de quem aprendeu a posar em altar e em palanque, mão que aperta forte demais. Senador Vittorio Moretti. Giovanni herdou o sobrenome; o pai herdou o país.

- Don Vitale. - ele sorriu como quem beija o anel do próprio poder. - Obrigado por me receber tão cedo.

- Eu não recebo cedo. - corrigi, sem sinalizar cadeira. - Eu recebo quando decido.

Ele sorriu um pouco mais. Político bom engole humilhação como vinho.

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