Dante
- Valentina?!
Meu nome nela é munição. O dela em mim é sirene. Cruzei o quarto em dois passos e a vi caída ao lado da cama, o ombro esquerdo encostado na quina do criado, os cabelos colados na têmpora. Me ajoelhei ao lado dela, tentei chamar outra vez, mas a voz ficou presa em algum lugar entre a garganta e a culpa.
Toquei sua pele. Fogo.
- Querida, fala comigo. - A voz me traiu, rouca, quase uma prece. - Sinto muito...
As palavras saíram com dor, mas não pela dificuldade. Doeu porque eu sabia por que as dizia: eu a deixei sozinha. Saí daquele quarto com a razão de um Don e a pequenez de um homem tomado por ciúmes. Infantil, irreconhecível, inútil.
O peito dela subiu raso, irregular. Acariciei-lhe a testa. Minha palma voltou ardendo.Puxei o corpo leve dela contra o meu. O calor da febre parecia tentar incendiar o mundo.
- Você está queimando... - murmurei, encostando a minha testa na dela como quem tenta tirar febre com o osso.
Os lábios dela mexeram, um arranhar de som. Precisei me aproximar até encostar a boca no canto da sua.
- Dante... não me abandona... - veio trêmulo, mal costurado de ar. - Por favor... não me deixa... só tenho você.
A frase atravessou o meu peito e cravou no lugar exato onde eu guardo as coisas que não admito sentir. Podia ser a febre. Podia. Mas há febres que só arrancam filtros; não inventam medos. E o medo dela eu reconheço sem treino, medo que Giovanni plantou, e eu reguei com silêncio.
- Eu não vou, meu bem. Prometo. - jurei, sem pensar se um homem como eu ainda tinha direito a promessas. Beijei sua testa úmida. - Eu tô aqui. E vou ficar.
Deitei-a com cuidado na cama e apertei a campainha com força até meu dedo ficar branco.
- TERESA! - A casa me respondeu com passos.
Ela entrou em segundos, avental torto de tanta pressa.
- Don... - os olhos foram do meu rosto ao corpo de Valentina.
- Prepara a banheira. Agora. Morna, sem exagero. - minha voz voltou para o registro em que o mundo obedece. - A febre voltou.
Ela correu, e eu permaneci ao lado de Valentina. Passei os dedos em seu rosto e voltei a beijar-lhe a testa.
- Você vai ficar bem. Eu não aceito o contrário.
Quando Teresa avisou que a banheira estava pronta, eu mesmo a peguei no colo.
- Vamos, querida. Eu cuido de você.
Levei-a para o banheiro. O vapor subia em ondas lentas, o som da água batendo no mármore era quase um lamento. Coloquei-a sentada na beira, desfiz os botões da camisola com cuidado, sem pressa, sem desejo, só culpa e ternura.
Teresa se aproximou, mas eu ergui a mão.
- Não. Eu faço.
- Mas, Don...
- Eu disse que eu cuido.
Ela entendeu. Saiu em silêncio.
Fiquei ali, ajoelhado, e deixei o tecido escorregar dos ombros de Valentina. Ela estava nua, vulnerável e febril. E eu, o homem que um dia foi feito para destruir, me vi completamente desarmado diante dela.
A água da banheira a envolveu, morna, como um abraço que o corpo aceitava. Afundei as mãos e as levei até os ombros dela, derramando água sobre a pele trêmula.
Ela abriu os olhos devagar.
- Dante... - a voz arranhava o silêncio. - Nunca ninguém me fez sentir nada disso...

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida Ao Don Da Máfia