Valentina
Acordei como quem arrebenta a superfície de um lago com os pulmões em chamas. Um som seco escapou da minha garganta, e meus dedos procuraram alguma coisa que não sei nomear. Encontrei pele quente, músculos tensos, um cheiro que já aprendi a reconhecer no escuro.
- Ei. - a voz dele veio antes da lógica. - Está tudo bem.
Pisquei até a luz se acomodar. O quarto estava tingido do dourado pálido da manhã. Dante parecia feito de vigília, olhos gastos, barba sombria, o cansaço desenhando uma sombra nova no rosto. Uma de suas mãos estava entrelaçada à minha, a outra pousava leve, firme, na minha clavícula como quem assina presença.
- Você... ficou. - Não foi pergunta; meu corpo se lembrou antes de mim.
O polegar dele deslizou no meu rosto num gesto que eu não sabia que ele sabia. Ele se inclinou e tocou minha boca num selinho simples, quase pudico e por isso mesmo indecente, do jeito certo.
- Me lembro de dizer que ficaria. - respondeu, com o tom que ele usa quando cumpre promessas raras.
Eu sorri, pequeno, para não assustar o momento. Só então percebi o peso nos ossos, a garganta áspera, o corpo cansado como quem lutou dormindo. A cabeça latejava num ritmo que não era meu.
- O que... aconteceu? - Minha voz soou de dentro de um poço.
Dante escolheu as palavras como quem desmonta uma arma para limpar. Contou do banho, da febre que cedeu, do meu sono preguiçoso, do meu corpo pesando no peito dele. Parou no ponto em que a luz do abajur teria acendido.
Eu conheço essas pausas. Conheço os silêncios que ele veste como terno.
- O que você está escondendo? - perguntei, sem doce, sem faca. Só querendo a verdade.
Ele suspirou uma derrota exata. Os olhos cinzas não fugiram; só ficaram mais invernosos.
- Você teve uma convulsão. - disse limpo. - A doutora veio, te examinou, colheu sangue. Vai checar... possibilidades.
A palavra ficou entre nós, sem peso suficiente para o que era. Possibilidades. Faltava a que doía.

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