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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 17

Dante

A calmaria rompeu-se de repente.

A campainha do portão soou distante. Passos apressados no corredor. A porta abriu no segundo seguinte. A doutora entrou com Teresa e Elisa, uma bolsa preta pendendo do ombro, mangas arregaçadas de quem veio trabalhando no caminho.

- Me contem. - pediu, aproximando-se sem rodeios.

Relatei como um homem relata um tiroteio: horário, duração, sinais. A médica checou pupilas, temperatura, reflexos, escutou o peito, examinou pele e unhas. Afastou sutilmente o lábio inferior de Valentina, olhou gengivas. Pegou um pequeno frasco âmbar da bolsa, um kit de coleta, agulhas. Colheu sangue com mão treinada; Valentina nem se mexeu. Colheu também uma amostra de saliva com uma haste. Entregou a Teresa um pedido de urina "assim que ela acordar".

- E então? - minha pergunta atravessou o espaço.

A doutora não respondeu de imediato. Estava olhando de novo para as unhas de Valentina, para as pálpebras, para um nada que de repente interessou. Eu conheço olhares que carregam notícia. Este carregava algo pior: hipótese.

- Fala. - exigi, a voz sem ângulo, só força.

Ela levantou os olhos para mim, mediu o terreno, escolheu a palavra com cuidado.

- Os sintomas... não fecham com uma infecção simples. - disse, didática, sem enfeite. - Febre que vai e volta, inapetência, prostração crescente... e agora uma crise convulsiva sem histórico anterior... - inclinou a cabeça para o lado, como quem decide dar o golpe - levantam a possibilidade de uma intoxicação exógena. Um veneno. Desses de efeito cumulativo.

Teresa levou a mão à boca. Elisa, atrás, virou estátua de pedra.

Eu só sorri. Não era humor. Era a forma que encontrei para não quebrar o quarto.

- Que veneno? - perguntei, baixo.

- Ainda é cedo pra cravar. - a médica manteve o peso no lugar certo. - Alguns tóxicos domésticos e certos metais pesados podem causar esse quadro. Outros, usados em doses pequenas e repetidas, também. - guardou o frasco com o sangue. - Preciso de exames de toxicologia, sangue e urina e de uma coleta discreta da água que ela bebeu, e se possível, amostras do que ela comeu nos últimos dias.

- Terá tudo. - falei, já numa língua que eu domino.

- Enquanto isso, mantenham hidratação, antitérmico se a febre voltar, e observação constante. Não recomendo que ela fique sozinha até o corpo eliminar toda a toxina. - O "não recomendo" veio quase como ordem. - Se houver nova crise, façam como fizeram: lateral, cabeça protegida, sem nada na boca. Eu vou agilizar o laboratório. - Ela completou, escrevendo rápido.

- "Agilizar" significa quanto tempo? - eu quis um número para esmagar.

- O mais rápido que eu conseguir. - ela respondeu, firme. - Vou pessoalmente. - Encostou os dedos de leve no pulso de Valentina, um gesto que eu não li como protocolo, mas como voto. - Voltarei com os primeiros resultados.

Assenti. Ela se despediu com um aceno curto e saiu, levando Teresa por um instante no rastro para alinhar a logística. Elisa recolheu discretamente as compressas usadas, as substituiu por limpas e chegou mais uma vez à respiração de Valentina.

- Eu fico à porta. - disse, como um aviso de guarda. - É só chamar se precisar.

- Obrigado, Elisa. - Eu sabia usar bem o "obrigado" quando ele era devido.

Ela saiu. Ficou um silêncio que não era mais limpo. Era um silêncio armado.

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