Dante
Acordei num lugar que não reconheci. Por um segundo, o teto era meu, as sombras eram minhas, o cheiro era meu. E então algo tremeu nos meus braços.
Valentina.
O mundo voltou inteiro e de uma vez. O escuro nos engolindo, o peso morno dela sobre meu peito, meu braço debaixo do seu pescoço, a mão dela ainda presa à minha como se o sono fosse um precipício.
O tremor repetiu, curto, estranho e percorreu o corpo dela como um arrepio que não tem frio. Endireitei o tronco.
- Rojas? - chamei, ainda rouco.
Outro tremor, mas esse foi maior. O ar no quarto mudou de densidade, como se faltasse oxigênio.
Acendi o abajur com um tranco.
A luz abriu a cena que eu não queria: os olhos dela entreabertos, mas sem foco, a mandíbula travando, o peito procurando um ar que não obedecia. Os dedos da mão esquerda fecharam e abriram, sem comando. Embaixo de mim, os músculos dela começaram a se contrair em ondas, descoordenados.
- Valentina, olha pra mim. - segurei o rosto dela entre as mãos. - Fala comigo, querida. Fala comigo agora.
O corpo dela ficou rígido de repente. A cabeça virou para trás, os lábios arroxeando nos cantos. Meu coração virou bicho.
- TERESA! - minha voz cortou a casa. - TERESA! - apertei desesperado a campainha que soava na ala dos funcionários.
A porta abriu num segundo que pareceu um mês. Teresa entrou em disparada, seguida por outra funcionária, pequena, morena, coque firme, olhos que já viram muito: Elisa.
- Senhor, o que aconteceu? - Teresa olhou de Valentina para mim, caçando instruções.
- Ela estava bem. A febre tinha baixado. - respondi, com a urgência mastigando as palavras. - E agora...
Elisa deu dois passos e já estava do outro lado da cama.
- Ela está convulsionando. - disse, firme, sem pânico. Um comando secreto ligou dentro dela. - Don, afaste os travesseiros só da cabeça e vire-a de lado. Agora.
Obedeci antes de pensar. Segurei o ombro de Valentina, girei com cuidado para a posição lateral, puxando o joelho dela para frente. A contração do corpo veio mais forte; se eu não estivesse ali, ela teria batido a cabeça na cabeceira. Elisa enfiou uma dobra do lençol sob o crânio, guarnecendo.
- Nada na boca. - ela avisou, como se lesse meus instintos. - Nem água, nem pano, nem dedo. Só segure a cabeça. - Afrouxou a gola da camisola de Valentina, afastou a colcha, deixou o ar chegar. - Teresa, cronometra. - E Teresa já olhava o relógio.
Valentina estremeceu inteira, um arco de dor que partiu meu peito. A saliva borbulhou no canto da boca. Elisa, ágil, virou um pouco mais a cabeça dela para baixo, para o lado, limpando com a curva da toalha.
- Respira, menina... isso, deixa o corpo brigar. - murmurou, num tom que só quem já cuidou de febres e partos conhece.
Meu braço por baixo da cabeça dela, a palma da minha mão encaixada sob a nuca, firme sem prender. Cada segundo era um insulto.
- Um minuto. - Teresa anunciou, tensa, mas útil.
O corpo de Valentina tremeu em choques menores, desorganizados, e depois... foi perdendo força. O maxilar ainda trincava, mas o olhar voltou a procurar um lugar. A respiração, primeiro picotada, entrou aos poucos.

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