Dante
O tempo ali dentro virou outra coisa. Eu falava pouco, ela falava menos. O chuveiro trabalhava por nós. Quando o rubor agressivo da febre cedeu um tom, fechei a água devagar, como quem termina um concerto sem que ninguém aplauda.
Enrolei-a numa toalha grande e seca. A pele dela cheirava a água e a ela mesma. A febre ainda estava ali, mas menos agressiva. Peguei outro pano, passei no rosto, no pescoço. Ela me olhava em silêncio, os cílios grudados, os olhos mais vivos.
- Melhor? - perguntei.
- Um pouco. - respondeu. - Você... - mordeu o lábio, como se escolhesse as palavras - Você vai ficar?
- Vou. - respondi sem hesitar.
Carreguei-a de volta para a cama. Deitei-a com cuidado, ajeitei o travesseiro. Sentei na borda, ainda encharcado, sem me importar. Coloquei nela a camisola, puxei a colcha até a cintura dela e enfiei minha mão por baixo, procurando a dela. Encontrei. Diminuta na minha.
- Você está molhado. - ela sussurrou, olhando minha camisa.
- Não me importo. - dei de ombros. - E não reclamo de consequências úteis.
- Vai ficar doente como eu, tire pelo menos a camisa. - Levantei o canto dos lábios, antes de dizer.
- Esse é seu jeito sutil de me pedir para ficar nu?
- Talvez, mas eu culpo a febre. - ela riu, e eu a segui. Me levantei, tirei minha camisa, depois a calça, e me enrolei em uma toalha. Voltei a sentar do seu lado, e peguei sua mão na minha novamente.
Ela fechou os olhos por um instante, e quando abriu, havia uma transparência que eu reconheci da noite em que a vi com olhos inchados: verdade.
- Por que você se afastou de mim? - perguntou, sem acusação. Só curiosidade que sangra.
Olhei para as nossas mãos, nossos dedos entrelaçados e mantive os olhos ali, desviando dos dela. O Don responderia "porque faço o que quero". O homem que eu não admito ser respondeu:
- Porque certas coisas... quando a gente toca, aprendem o caminho de volta. - voltei aos olhos dela, porque fugir da pergunta e encará-la ao mesmo tempo é meu único talento. - E eu não sei se sobrevivo a mais um caminho desses.
Ela me estudou como estuda uma página difícil. Então arqueou a sobrancelha, muito de leve.
- Eu... não sou "coisa", Dante. - Me lembrou, e vi a sombra de um sorriso. - Sou pessoa. - apertou minha mão. - E eu não mordo.
- Mordo sim. - retruquei, aliviando o peso. - Já vi esses dentes. - Toquei, com o polegar, o canto da boca dela e ela sorriu de verdade, pequeno, lindo.
Batidas rápidas na porta.
- Senhor? - era a Teresa. - A doutora chegou.
- Entre. - falei, sem soltar a mão de Valentina.
A médica cruzou o quarto com a naturalidade de quem já esteve em lugares onde o poder também adoece, aproximou-se de Valentina.
- Boa tarde, senhorita Rojas. - ele virou para mim. - Don Vitale. - A cumprimentei apenas com um aceno.
E logo ela começou a examinar Valentina. Mediu a febre com o dorso da mão, depois com o termômetro.
- Trinta e nove e um. - Ela disse mais para ela do que para nós, depois voltou-se para mim. - Vamos baixar com antipirético e hidratação. O banho ajudou. - O olhar rápido dela pousou em meu peito sem camisa; mas não comentou.
- Faça o que for necessário. - respondi.
Enquanto a doutora preparava o medicamento e as orientações, Valentina me puxou de leve.
- Não... vai sair?
- Não. - garanti.
Ela assentiu, e eu vi a vigilância abandonar um pouco a postura dela. A doutora aplicou o remédio, deu instruções sobre intervalos, compressas, água com eletrólitos. Teresa já trazia a bandeja com copo, gelo e panos limpos. O mundo voltou à ordem funcional.
- Se não houver melhora em seis horas, avisem que volto. - a médica concluiu.
- Haverá. - eu disse, mirando Valentina, não o remédio.
A médica saiu e mandei Teresa me trazer roupas. Ficamos de novo sozinhos, eu molhei a ponta do pano, torci e coloquei na testa dela. Ela fechou os olhos e soltou o ar num alívio pequeno. O coração, esse traidor antigo, desacelerou dentro de mim como máquina bem regulada.
- Dante... - chamou, ainda de olhos fechados.
- Hm?
- Quando eu melhorar... - um sorriso enviesado, fraco, porém insolente - você vai voltar a me... ignorar?
A pergunta atravessou a cama inteira e acertou o alvo.
Ajeitei-me na borda, inclinei o corpo sobre ela, mas sem pesar. Tirei o pano de sua testa e encostei a minha.
- Se eu te ignorar... - falei baixo, para que só os ossos dela escutassem - me puxe de volta. Nem que seja pelo orgulho.
Ela riu, e o riso dela, febril e tudo, valeu mais do que qualquer acordo que assinei este mês.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida Ao Don Da Máfia