Dante
Quatorze dias. Foi esse o tempo que encontrei para me enganar.
Houve reuniões que exigiram minha presença em Livorno, um carregamento atrasado em La Spezia, um acordo que quase azedou em Roma, dois chefes de praça pedindo dinheiro que eu não devia e um político pedindo silêncio que eu não venderia barato.
Foi perfeito.
O mundo lá fora serviu de álibi para o que eu precisava fazer aqui dentro: evitar Valentina Rojas.
Evitar... e ainda assim, vê-la.
Eu a vi na biblioteca, sentada com as pernas cruzadas, o rosto inclinado sobre um romance que eu mesmo mandei separar. Eu a vi escorregando as pontas dos dedos pelas teclas do piano como quem toca um animal arisco, notas tímidas, duas, três, parando antes do que eu sabia que vinha depois. Eu a vi na sala de TV, o corpo encolhido no canto do sofá, um filme antigo em preto e branco refletido nos olhos castanhos. Eu a vi passar no corredor com um xale cinza-escuro nos ombros, o mesmo que coloquei nela sem encostar na pele.
Eu a vi... e fingi que não.
Às quartas-feiras, a médica veio. Primeiro exame, segundo exame, sangue, pressão, conversa. O relatório chegou ontem: "Saudável. Pronta para engravidar". Duas palavras simples como faca.
E ainda assim, adiei. Cancelei os almoços. Deleguei jantares. Passei por ela em silêncio quando poderia ter parado. Troquei o rosto dela por contratos, as mãos dela por canetas, a voz dela pelo som de cofres fechando. E, por três dias, nem isso me deu trégua, Valentina não apareceu. Não na biblioteca, nem no piano, nem no sofá, nem mesmo nos corredores.
No terceiro dia, a ilusão de controle rachou.
— Entre. — Minha voz saiu mais dura do que eu queria quando bateram duas vezes no escritório.
Teresa entrou. Avental impecável, expressão contida. Só os olhos diziam algo: urgência.
— Senhor, a senhorita Valentina não conseguiu se alimentar pela manhã... e recusou o almoço. — ela disse, medindo cada palavra.
Eu fechei a tampa do laptop como quem fecha uma arma.
— Birra? — Cuspi, escolhendo acreditar no que doía menos.
— Não, senhor. — Teresa ergueu o queixo um centímetro. — Ela está abatida há alguns dias. Não se alimenta direito.
Houve um aperto miúdo, no exato lugar onde antes eu dizia que não tinha nada.
— Ela está doente há três dias e só me avisa agora, Teresa? — levantei da cadeira. A irritação é o colete à prova de balas dos que sangram.
— Eu a observei, senhor. Incentivei líquidos, tentei sopas, frutas... — os olhos dela baixaram um instante. - Ela piorou hoje.
A cadeira arranhou o mármore quando a empurrei, e logo já estava na porta.
— Venha. - ordenei.
O corredor pareceu longo demais. Teresa me seguiu em silêncio. A cada passo, uma possibilidade escura se alargava na minha cabeça como mancha d'água: infecção, se machucou e não me contou, deram alguma coisa envenenada para ela. Tranquei o músculo da mandíbula para que nada dessas idiotices vazassem pela boca.
Empurrei a porta do quarto de Valentina sem bater.
As cortinas estavam entreabertas, a luz da tarde filtrada num dourado pálido. Ela estava deitada de lado, a colcha puxada até a cintura, os cabelos soltos numa confusão morna sobre o travesseiro. Os olhos fechados, os lábios levemente abertos.
Linda, mesmo sem cor.
Aproximei. Encostei os dedos na testa dela.
Fogo.
— Merda. — sussurrei.
Virei o rosto para Teresa, sem afastar a mão.
— Ligue para a doutora agora. Diga os sintomas. Diga que eu exijo que venha para cá. — reforcei, porque exigências ainda são a língua que o mundo entende de primeira.
— Sim, senhor. — Teresa já discava, andando para o canto do quarto.
Minha palma ainda na testa dela. O calor atravessava pele, ossos, entrava pelo meu braço e instalava o pânico numa sala do meu peito que eu fingia estar vazia.
— Ela está ardendo em febre, Teresa. Como deixou chegar a isso? — não tirei os olhos de Valentina, mas feri Teresa eu sei. Foi um reflexo, mas era o culpado mais fácil.
— Desculpe, senhor. — a culpa apareceu limpa, mas firme. — Tentei. Ela ocultou o mal-estar... e ontem à noite me pediu para não incomodá-lo.
Claro que pediu. Orgulho teimoso, igual ao meu.
Teresa cobriu o microfone do celular e concluiu:
— A doutora já está a caminho. Disse para hidratarmos e resfriarmos. Um banho morno ajudará.
Assenti.

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