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Vendida Ao Don Da Máfia romance Capítulo 127

Valentina

O choro dela era uma lâmina. Não havia venda nos meus olhos, mas havia um saco de pano preto na minha cabeça. O mundo era escuridão, cheiro de gasolina e solavancos violentos.

Mas o som... o som era a única coisa que importava. Vittoria chorava. Não era o choro de fome ou de manha. Era o choro de terror. Agudo, engasgado, desesperado.

- Shhh, calma, meu amor... a mamãe tá aqui! - gritei, minha voz abafada pelo capuz. - Eu tô aqui, Vittoria!

- Cala a boca! - um dos homens gritou, e senti o cano frio de uma arma bater na minha costela.

- Eu não vou calar a boca! - rosnei, chutando o vazio à minha frente. - Ela é só um bebê! Ela tem problema no coração! Se ela morrer, o Dante vai arrancar a pele de vocês enquanto estiverem vivos!

O homem riu. Uma risada nervosa. O nome "Dante" ainda causava medo, mesmo ali. Onde estava Nico? A imagem de Teresa correndo com ele para dentro da igreja passou pela minha mente como um filme. Ele estava salvo. Dante o protegeu.

Mario... Sofia... o sangue no vestido dela. Engoli o vômito que subiu pela garganta.

Concentre-se, Valentina. Você não pode desabar. Vittoria precisa de você.

A van freou bruscamente, jogando meu corpo para frente. A porta lateral se abriu. Mãos rudes me agarraram pelos braços e me arrastaram para fora. O capuz foi arrancado. A luz do dia me cegou por um segundo. Pisquei, tentando focar.

Estávamos dentro de um galpão imenso, abandonado. O teto era alto, com vigas de ferro enferrujadas. O chão era de cimento sujo de óleo. Janelas quebradas no alto deixavam entrar feixes de luz poeirenta.

- Vittoria! - girei o corpo, procurando. Vi um homem carregando minha filha como se ela fosse um pacote. - Tira a mão dela! - gritei, avançando.

Fui interceptada. Um brutamontes me segurou por trás, travando meus braços. Outro veio com cordas.

- Me solta! - comecei a me debater.

Chutei a canela do homem que me segurava, mordi o braço dele. Eu não era mais a menina que Giovanni vendeu. Eu era a esposa de um mafioso. Eu sabia lutar sujo.

- Maldita! - o homem gritou, me soltando por um segundo.

Aproveitei a brecha e corri em direção à minha filha. Mas não cheguei lá. O segundo homem me alcançou. O tapa veio com as costas da mão, forte, pesado. O impacto estalou no meu maxilar e me jogou no chão de cimento. Senti o gosto metálico de sangue na boca. O mundo girou.

- Amarra ela naquela cadeira! Agora! - alguém ordenou.

Fui levantada e jogada numa cadeira de metal enferrujada. Senti as cordas apertarem meus pulsos atrás das costas, cortando a circulação. Amarraram meus tornozelos nos pés da cadeira. Levantei o rosto. Cuspi o sangue no chão e encarei o homem que me bateu. Eu não chorei. Eu não implorei.

- Você cometeu o maior erro da sua vida. - falei, com a voz trêmula de raiva, não de medo. - O meu marido não vai matar você. Ele vai fazer você desejar nunca ter nascido.

O homem levantou a mão para me bater de novo.

- Pare.

A voz veio da sombra, no fundo do galpão. Era uma voz feminina. Suave. Culta. Mas carregava um frio que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem.

O som de saltos batendo no cimento ecoou. Toc. Toc. Toc. Os homens recuaram imediatamente, baixando a cabeça. Ela saiu da escuridão.

Beatrice...

Ela usava um vestido preto de alta costura, impecável, como se estivesse indo a um desfile de moda e não a um cativeiro. Um chapéu de aba larga protegia o rosto pálido. Luvas de couro preto cobriam as mãos. E nos braços dela... Vittoria.

Minha filha tinha parado de chorar, exausta, e agora soluçava baixinho, a cabeça apoiada no ombro da mulher que queria destruir o pai dela. O instinto animal dentro de mim rugiu.

- Tira as mãos da minha filha, sua vadia! - gritei, puxando as cordas até meus pulsos queimarem.

Beatrice parou a três metros de mim. Ela sorriu. Não era um sorriso de ódio. Era um sorriso doce. Perturbadoramente doce.

- Que modos horríveis, querida. - ela disse, ajeitando a manta da Vittoria com uma calma aterrorizante. - Achei que Dante tivesse te ensinado etiqueta. Afinal, para ser a Rainha dele, é preciso postura.

Ela tirou os óculos escuros devagar, pendurando-os no decote do vestido. E então, ela olhou para mim. Foi nesse momento que meu sangue gelou de verdade. Eu esperava ver raiva. Esperava ver a estrategista fria. Mas não foi isso que eu vi.

Os olhos de Beatrice eram vidros quebrados. Havia um brilho febril, apaixonado, desconexo. Ela não era uma inimiga política. Ela era uma mulher rejeitada que criou uma realidade paralela.

- Ela é bonita. - Beatrice comentou, olhando para Vittoria com adoração, ignorando meus gritos. - Tem os olhos dele. Cinzas. Frios. Perfeitos.

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